Oficinas de Governo Aberto 2020

Teve início no dia 15 de setembro e vai até dezembro o ciclo 2020 das Oficinas de Governo Aberto. Este ano, por conta do contexto pandêmico, as oficinas são online e em razão disso pessoas de fora do munícipio também podem participar das atividades.

Ao todo são 32 Agentes de Governo Aberto com oficinas distribuídas em 6 diferentes categorias temáticas: transparência, participação social, inovação, comunicação, controle social e processos legislativos.


Esse ano trago a oficina “Identificando notícias falsas e promovendo uma comunicação cidadã” que tem como objetivo compartilhar técnicas de checagem dos fatos e despertar no cidadão o seu importante papel na luta contra a disseminação de notícias falsas, além de dar insumo para o desenvolvimento de uma comunicação correta, transparente e cidadã.

Dentre os conteúdos abordaremos aspectos de comunicação e democracia, desinformação e discurso de ódio, o papel das plataformas, checagem dos fatos, contra-narrativas em rede e dicas de checagem na prática. Além da oficina, há uma pasta de referências bibliográficas com mais de 50 artigos, livros e relatórios de institutos de pesquisa que ficará a disposição do participante.

Já temos as datas das minhas oficinas do mês de outubro (abaixo) e estou agendando para movimentos sociais, grupos de pesquisas e demais turmas que queiram uma sala fechada. Quem tiver interesse na inscrição nas datas já disponíveis ou solicitar uma oficina, só entrar em contato por este formulário.



Mas como disse acima, são 32 oficinas diferentes. Tem muito conteúdo nos mais variados temas. Vou deixar abaixo alguns exemplos (com texto descritivo do site de divulgação). Se inscrevam. Todas as oficinas são gratuitas e certificadas.

Vivendo e Aprendendo – Tecnologia 60+

  • A oficina visa facilitar o uso dos aparelhos celulares, smartphones pelos idosos, aproveitando seus benefícios, como: consultas SUS, SP156, Meu INSS. Entender sobre Fake News e suas consequências e sobre compartilhamento consciente.

Controle social na prática: aprenda a garantir os seus direitos como cidadão

  • Para colocar o controle social em prática, o primeiro passo é exercer seus direitos. Esta oficina permitirá aos participantes conhecer seus direitos, cobrar seu cumprimento, exercer o controle social e combater a corrupção.

Criação de web rádio e podcast com softwares livres

  • Crie uma Web Rádio com transmissão ao vivo usando software livre, grave e publique como podcasts. Incentive a participação social com debates e conteúdos da sua comunidade.

Checa Fato – apurando e construindo informações

  • Nesta oficina, vamos ensinar formas de identificar e checar informações em fontes confiáveis e a produzir novas informações, construídas a partir de critérios jornalísticos.

Planejamento familiar: direitos da gestação ao parto

Você sabe o que é planejamento reprodutivo? Ou melhor, que ele existe? Pois é, esse é um dieito que você tem e será apresentado nesta oficina de governo aberto.

Mapas e combate à pandemia

  • Os mapas são instrumentos poderosos, há séculos utilizados no combate a epidemias e problemas de saúde pública. Com a pandemia do novo coronavírus observamos uma efervescente produção de mapas, com os mais diferentes usos, entre eles a análise da disseminação do vírus na cidade, fornecendo informações estratégicas para a definição de políticas públicas de combate a COVID-19. Nesse curso iremos explorar as relações entre os mapas e a saúde pública, com exemplos históricos, tais como o mapa da cólera, de 1850. Mais do que isso, já que esse não é apenas um curso teórico, juntos vamos explorar os dados territorializados disponibilizados pela Secretaria Municipal da Saúde para refletir sobre possíveis ações locais no enfrentamento da pandemia. Trata-se de uma abordagem teórico prática voltada a funcionários/agentes públicos e atores locais, que poderá contribuir para a definição de estratégias de enfrentamento na escala local.

Cartografeto – Cartografia Afetiva do território

  • A oficina irá promover a troca de saberes entre os participantes na construção de um processo de reconhecimento do seu território de vivência e potencialização do dialogo e convívio com as diferenças.

Chega de bagunça! Como a organização das informações públicas pode aumentar a participação social através da atuação de robôs

  • Venha discutir e aprender como a padronização na divulgação das convocações de reuniões e audiências permite a interpretação das informações por robôs e aumenta a participação social.

Uma web possível: criação de sites acessíveis

  • Há um tempo a internet é um, cada vez mais, importante meio de oferecimento de serviços, mas estes, nem sempre estão disponíveis para todos, e, podemos mudar essa realidade. Saiba como, construindo e apoiando uma web acessível e possível!

APIS de visão computacional: investigando mediações algorítmicas a partir de estudos de bancos de imagens

O artigo publicado recentemente na Revista Logos é parte dos resultados do projeto Interrogating Vision APIs realizado no Smart Data Sprint 2019 e elaborado por Tarcízio Silva, André Mintz, Taís Oliveira, Helen Takamitsu, Elena Pilipets, Hamdan Azhar e Janna J. Omena.

O artigo apresenta resultados de estudo sobre Interfaces de Programação de Aplicações (API, na sigla em inglês) de visão computacional e sua interpretação de representações em bancos de imagens. A visão computacional é um campo das ciências da computação dedicado a desenvolver algoritmos e heurísticas para interpretar dados visuais, mas são ainda incipientes os métodos para sua aplicação ou investigação críticas.

O estudo investigou três APIs de visão computacional por meio de sua reapropriação na análise de 16.000 imagens relacionadas a brasileiros, nigerianos, austríacos e portugueses em dois dos maiores bancos de imagens do ocidente. Identificamos que: a) cada API apresenta diferentes modos de etiquetamento das imagens; b) bancos de imagens representam visualidades nacionais com temas recorrentes, mostrando-se úteis para descrever figurações típicas emergentes; c) APIs de visão computacional apresentam diferentes graus de sensibilidade e modos de tratamento de imagens culturalmente específicas.

Para acessar o artigo completo clique aqui.

Artigo: #quemmandoumatarmarielle: a mobilização online um ano após o assassinato de Marielle Franco

Acaba de ser publicado na Revista Líbero o artigo #quemmandoumatarmarielle: a mobilização online um ano após o assassinato de Marielle Franco em co-autoria entre Taís Oliveira, Dulcilei Lima e o Professor Dr. Claudio Penteado.

O artigo apresenta o resultado do mapeamento de conversas e grupos no marco de um ano do assassinato da vereadora carioca Marielle Franco, ocorrido em 14 de março de 2018. A metodologia utilizada foi a Análise de Redes Sociais na Internet a partir de publicações no Twitter com as hashtags #QuemMatouMarielle, #QuemMandouMatarMarielle, #MariellePresente, #MarielleFrancoVive e #MarielleVive.

Buscamos compreender quais as pautas levantadas pelos usuários e que grupos são identificados a partir da clusterização da rede. Quando Marielle foi morta, essas hashtags reuniram discussões, manifestações de condolência, cobrança por justiça e o assunto chegou a ocupar a primeira posição no Trending Topics Mundial do Twitter no dia 15 de março de 2018. Dias antes do marco de um ano da morte da vereadora surgiram nas redes sociais as primeiras mobilizações com a convocação de atos, homenagens, filtros nas fotos de perfil no Facebook, ações que cresceram com a notícia das prisões de dois suspeitos. Observamos nesse contexto a estrutura e os atributos relacionais de tais manifestações.

Obtivemos como principais resultados uma rede extensa, descentralizada, com nós unilaterais e diversos clusters. Embora com nós pouco conectados, as conversas na rede se deram sob as mesmas pautas baseadas em uma única questão: quem mandou matar Marielle?

Acesse o artigo completo aqui.

Democracia, resistência e esperança: um bate-papo* generoso com Patricia Hill Collins

*Encontro ocorreu em novembro de 2019.

Em seu último dia no Brasil, a professora e filosofa americana Patricia Hill Collins participou de um encontro especial e generoso com movimentos e organizações sociais na sede da Ação Educativa, em São Paulo. Em solo brasileiro desde setembro, Collins veio para participar de diversos eventos e lançar seu livro Pensamento Feminista Negro: conhecimento, consciência e a política de empoderamento, que embora publicado na década de 90, somente agora ganhou tradução para o português.

O encontro ocorreu na manhã de domingo com o auditório do predinho repleto de mulheres negras, professoras, líderes comunitárias, jovens, estudantes e profissionais das mais diversas áreas que proporcionaram um belíssimo momento de partilha de suas vivências.

Com o tema “Democracia, resistência e esperança” o bate-papo foi dividido em três etapas: representantes de movimentos sociais fizeram uma breve explanação sobre suas causas, contextos e articulações; em seguida, a professora Patricia Hill Collins fez uma fala a partir destes relatos; e por fim, os presentes puderam fazer perguntas abertas para a professora.

Fotos: Taís Oliveira

Dentre os movimentos sociais que apresentaram suas bandeiras estavam o Movimento Mães de Maio, Movimentos por Moradia, Movimentos Sem Terra, Movimentos LGBTQI+, a Rede de Proteção e Resistência contra o Genocídio, o coletivo Periferia Preta e o coletivo Ecos e Reflexos América Latina.

Todos, em certa medida, falaram das diversas violências e desumanizações que atravessam a população negra no país. Desde a violência estatal trazidos de forma potente nas falas das Mães de Maio e da Rede de Proteção e Resistência contra o Genocídio, do direito à terra, alimentação saudável e moradia digna a partir dos contextos de luta do Movimento de Moradia e Movimento Sem Terra, da dupla desumanização (transfobia e racismo) que pessoas negras transgêneros vivenciam cotidianamente e a articulação da juventude periférica a partir da fala dos coletivos.

Na sequência, a professora iniciou sua fala questionando “Por que ainda estamos aqui? Como conseguimos sobreviver?” trazendo para reflexão as diversas formas de nos mantermos em resistência, particularmente em sociedades violentas como no contexto brasileiro.

Sobre o conceito de interseccionalidade, muito disseminado em seu pensamento em relação a compreensão das problemáticas sociais, Collins afirma que “a interseccionalidade é uma trajetória intelectual pela busca da humanidade plena de todos os cidadãos” e que devemos ter em mente e na prática política que a mulher negra está no centro de todas as formas de resistência.

Por fim, trazendo à tona os relatos anteriores e sobre sua passagem pelo país, Collins afirma que recebeu muitos presentes no Brasil, mas o mais importante deles foi a oportunidade ouvir as ideias e histórias centradas nas experiências de mulheres negras e nas histórias das pessoas que elas [as mulheres negras] amam.   

Aproveito aqui para deixar um agradecimento à Associação Cidade Escola Aprendiz, em especial Paula Patrone, Roberta Tasselli e Vivian Ragazzi, pela oportunidade de participar deste encontro histórico representando o Aprendiz.

Paul Gilroy: uma reflexão sobre “direita alternativa” e política antirracista

Paul Gilroy  — londrino, professor de sociologia, teoria social, economia e estudos afro-americanos, autor do clássico Atlântico Negro e teórico sobre os temas de diáspora, modernidade e luta antirracista — publicou artigo intitulado Civilizacionismo, a “alt-right” e o futuro da política antirracista: um informe da Grã-Bretanha no Dossiê Racismo da Revista Eco Pós da UFRJ, em 2018.

Paul Gilroy

Li o artigo recentemente, por indicação da colega Juliana Serzedello Crespim Lopes, e vou compartilhar uma breve resenha e comentários sobre o texto que, para mim, apresenta uma antecipada e provocativa reflexão ao caos que vivenciamos atualmente.

Civilizacionismo, a “alt-right” e o futuro da política antirracista: um informe da Grã-Bretanha

O artigo se propõe a discutir a ascensão da “direita alternativa” ou “alt-right”, termo elaborado por seu próprios praticantes, a partir de uma análise sobre como as tecnologias reformularam o fascismo e o racismo, sobretudo em relação às estruturas políticas de comunicação baseadas em algoritmos e propagação de fake news. Para o autor, a revolução tecnológica oferece um novo significado para a política e parapolítica o que exige novas formas de se relacionar entre partidos, movimentos e mobilizações.

Gilroy inicia relembrando a virada discursiva da questão racial de biológica para cultural, sobretudo quando este modo de análise tornou-se suporte estratégico para grupos ultranacionalistas e neofascistas. Aqui no Brasil, especificamente, podemos falar do movimento eugenista em que pessoas consideradas da “elite intelectual” acreditavam por uma suposta ciência em uma “nação do futuro” onde não-brancos eram excluídos por não terem determinadas “qualidades”. Dentre essa “elite intelectual” estavam nomes como Monteiro Lobato e o proprietário do jornal O Estado de SP, Julio de Mesquita. Na fronteira do contemporâneo, discutir essas questões, para o autor, representa sintomas da morte da esquerda organizada. É preciso encontrar abordagens capazes de repensar o global e o local sem recorrer a concepções deterministas entre gênero, raça, sexualidade e classe.

Por um lado há quem afirme categoricamente que racismo não existe, por outro, como afirma Gilroy, nossa relação com o racismo e hierarquias raciais foi alterada diante da economia da atenção. Há, portanto, novos problemas, como o “juri da internet”; disseminação de comentários racistas; o anonimato que desvela a pior essência do ser humano; e o que o autor chama de crowdsourcing multinacional da supremacia branca. Para o autor, algumas dessas forças racistas e fascistas contam com o reforço de trolls russas, inteligência artificial e robôs que agem sem uma jurisprudência e legislação.

Dessa forma, a mediação computacional foi o grande motivo da repaginação do fascismo genérico, segundo Gilroy. Para o autor essa repaginação é responsável por um postura em que os neorreacionários e os antigos neonazistas, os supremacistas brancos e os antissemitas agora não se veem mais como o mal radical, mas como se suas ideias fossem realmente ousadas, transgressoras, cômicas, irônicas e futuristas. E além do absurdo de acreditarem nesses fatores como elementos positivos, isso tudo ocorre com o amparo do argumento da liberdade de expressão.

O agrupamento é tecnologicamente sofisticado e tem um domínio desconcertante de comunicação política e psicológica, por meio dos aspectos libidinais e afetivos das novas tecnologia, em geral, e das mídias sociais, em particular. (p. 22)

Para o autor esse agrupamento tem alcance não somente pela distribuição de informações, mas também pela conquista e monopolização da atenção. O que ele chama de “economia da atenção” caracterizada por declarações chocantes, provocativas que tornam irrelevantes o conteúdo que seria realmente o foco. A título de exemplo, basta nos recordar da coletiva sobre a demissão de Sérgio Moro no qual o senhor eleito presidente explanou por 40 minutos absurdos aleatórios e por três minutos o comunicado oficial.

Parte do artigo Civilizacionismo, a “alt-right” e o futuro da política antirracista: um informe da Grã-Bretanha

Ao apresentar essas questões, Paul Gilroy indaga: como a sociedade, principalmente os acadêmicos e atores políticos vão avaliar e comunicar suas ponderações; como ir além de análises que tomam somente o ambiente online como campo de estudo; compreender o papel da ética-política; e entender e principalmente agir em relação as novas ecologias midiáticas contemporâneas. Para tanto, o autor afirma de forma enfática: a batalha contra o racismo na ética, na epistemologia e na ontologia política é de preocupação fundamental. (p. 32). Sugere, portanto, que não haverá solução efetiva se esta não passar por profundas e constantes reflexões em torno das questões raciais.

O autor clama por um luta antirracista que ressurja e molde um humanismo cauteloso e pós-humanista que seja capaz também de compreender as relações multi-espécies entre humano e não-humanos.

Assim, no espírito do necessário reencantamento do humanismo, vamos buscar uma perspectiva diferente sobre as provações da cultura e da civilização do que as perspectivas atualmente fornecidas a nós por Farage, Wilders, LePen, Petry, Bol*onar*, Halla-aho, Pegida e sua laia. Nós temos que ser fortes o suficiente agora para perguntar o que a aceitação de seus racismos revela sobre até que ponto nossa própria civilização comum tem sido capaz de se sustentar e manter. Se fugirmos dessa obrigação, seremos condenados a uma escolha vazia entre diferentes variedades de barbárie. (p. 33)

Vale ressaltar que esse artigo foi publicado em 2018, hoje, 03 de maio de 2020, se já não nos bastasse a falha de termos como presidente o integrante principal da familícia Bolsonaro, o senhor eleito disse em uma manifestação contra-democracia que “É uma manifestação espontânea, em defesa da democracia, para governar sem interferência para trabalhar pelo futuro do Brasil. (…) Não vamos admitir mais interferências” em outra ocasião bradou “Eu sou a constituição”. O que mais estamos aguardando depois de tanta consolidação fascista? Até quando lutaremos com notas de repúdio? Onde estão as instituições pró-democracia?

O texto, apesar de relativamente curto, aborda outras questões que podem ser aprofundadas por diversas perspectivas. Deixo alguns tópicos para ilustração:

  • Como indicação extra, Paul Gilroy sugere a leitura dos livros do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han;
  • Paul faz uma critica certeira sobre como a racialidade comunicativa está comprimida no espaço mínimo de hashtags, tweets, memes, likes e follows;
  • Há também uma crítica sobre a “gestão da diversidade” adotada por grandes corporações. Para o autor isso representa uma face da revolução neoliberal que impacta diretamente na luta antirracista em conflito com uma suposta negritude neoliberal;
  • Dentre outros temas, Gilroy fala do uso abusivo de remédios antidepressivos e ação de uma teologia neoliberal que oferece falsas esperanças.