Redes Sociais na Internet e a Economia Étnica: Um estudo sobre o Afroempreendedorismo no Brasil

Em agosto deste ano defendi minha dissertação sobre Redes Sociais na Internet e a Economia Étnica: Um estudo sobre o Afroempreendedorismo no Brasil. O percurso no mestrado em Ciências Humanas e Sociais na Universidade Federal do ABC (UFABC) iniciou em 2017 e foram dois anos e meio de leituras, eventos, congressos, artigos, orientações, mudança de rumo, grupos e núcleos de pesquisa. Etapas e atividades que foram essenciais para o desenvolvimento da pesquisa.

Dividida em três partes principais que formam o tripé da fundamentação teórica, a dissertação tem uma base na comunicação com o estudo que começa observando as redes sociais na internet, discute aspectos políticos-sociais da formação da população negra no Brasil e analisa as aproximações da Teoria da Economia Étnica, que tem suas bases na sociologia do trabalho, com o Afroempreendedorismo.

Da subsistência ao Afroempreendedorismo: uma outra economia é possível?

A Teoria da Economia Étnica pressupõe a ação coletiva sobre o desenvolvimento de trabalho e renda de pessoas que pertencem ao mesmo grupo étnico. Aqui no Brasil, por exemplo, temos trabalhos que tratam da formação econômica de italianos, espanhóis, chineses, etc. Sua aplicabilidade teórica se aproxima do que chamamos hoje de Afroempreendedorismo enquanto atividade desenvolvida por profissionais e empresários negros com o objetivo de obter renda.

É importante ressaltar que a pesquisa passa por uma trajetória de primeiramente compreender como ocorre a formação econômica da própria população negra no Brasil. Sobretudo em relação aos momentos cruciais na história como em todas as fases econômicas do país que usufruem de corpos negros para enriquecer determinados grupos étnicos, o fim da escravidão sem qualquer respaldo para a população negra, a lei da vadiagem, entre outras ocasiões até chegar em tempos mais contemporâneos com as leis de cotas e ações políticas de acesso à educação superior.

A conexão com o Afroempreendedorismo ocorre ao observar que o tema é discutido tanto em movimentos populares: a dissertação é inspirada principalmente na observação de grupos como Feira Cultural Preta, Afrobussines, BlackRocks Startup, Movimento Black Money, entre outros; em trabalhos acadêmicos: apresento uma revisão sistemática de trabalhos que tratam do Afroempreendedorismo no Brasil que, embora num contingente pequeno, já traz debates muito importantes calcadas nas mais diversas áreas do conhecimento; mídia: sobretudo nos últimos anos o tema Afroempreendedorismo têm ganhado destaque em jornais, programas de tv, rádio, etc; e também de políticas públicas: analiso os 10 últimos anos do tema nos relatórios da Seppir e o estudo sobre o acesso ao microcrédito produtivo liderado pelo Prof. Doutor Marcelo Paixão, da UFRJ.

Como dito anteriormente, as minhas primeiras observações sobre o Afroempreendedorismo enquanto um fenômeno possível de análise surge no ambiente digital ao conhecer importantes projetos, lideranças, grupos focados nesta pratica e indo ao território experienciar essa vivência. Portanto, parto da discussão da apropriação tecnológica, da aglomeração por interesse nas plataformas de mídias sociais e da manifestação de identidades nesses espaços. Portanto, neste capítulo trago autores que apresentam reflexões sobre identidade, diáspora, humanidades digitais negras e uso das tecnologias e internet para fins coletivos.

Metodologia e alguns resultados

Além da fundamentação teórica e das duas revisões sistemática sobre Afroempreendedorismo e a Teoria da Economia Étnica, a dissertação conta a Análise de Redes Sociais na Internet, formulário online direcionado aos Afroempreendedores e entrevista semi-estruturada aplicada aos nós que se destacaram na rede.

A partir da estrutura da rede observamos a predominância de representações que valorizam e reforçam a estética negra, sobretudo no primeiro cluster e elementos que surgem também nas demais comunidades. A rede nos mostra páginas que representam certa preocupação com problemas sociais como as que aparecem na comunidade de Comunicação Alternativa e Direitos Humanos. Importante ressaltar a quantidade expressiva de páginas de veículos de comunicação que atuam como uma ferramenta alternativa de fluxo de informação e que explicitam em seus títulos a questão racial ou de território, como Alma Preta, Mundo Negro, Por Dentro da África, Blogueiras Negras, Portal Correio Nagô e Mídia Periférica. Outro aspecto de destaque são os diversos artistas negros que aparecem em pelo menos três comunidades distintas. Assim, podemos destacar que principais temáticas relacionais da rede de afroempreendedores tratam de estética e beleza, problemas sociais e direitos humanos, comunicação e artes. Elementos que não permeiam especificamente a prática afroempreendedora, mas que sugerem um entrelaçamento com a própria identidade e vivência da população negra.

A rede pode ser explorada interativamente aqui.

Já sobre o formulário online, alguns dos resultados nos levam a outras questões, tais como: por que há mais mulheres do que homens no circuito afroempreendedor? Por que mais pessoas jovens e solteiras? Será que o maior grau de escolaridade influencia na opção por ser afroempreendedor? Quais as razões que levam aqueles com negócios focados em algum aspecto da cultura negra optarem por isso? Por fim, vale pontuar alguns aspectos metodológicos que podem enviesar os resultados, como grande parte dos respondentes serem do estado de São Paulo e o formulário ter circulado somente online, o que talvez já elimine uma gama de perfis de afroempreendedores sem acesso à internet.

As entrevistas semiestruturadas foram realizadas com quatro afroempreendedores responsáveis por páginas que se destacaram na rede pelo grau de entrada. São eles: Jaciana Melquiades da ‘Era Uma Vez o Mundo’, Wanessa Yano, da ‘Ayê Acessórios’, Michelle Fernandes, da ‘Boutique de Krioula’ e Evandro Fióti, da ‘Laboratório Fantasma’. As perguntas variaram entre a trajetória pessoal de cada afroempreendedor, a rotina e a importância das ferramentas da internet, sobretudo os sites de redes sociais, o afroempreendedorismo e a relação com a identidade, posicionamentos e perspectivas políticas e a relação do afroempreendedorismo com o sistema capitalista que estrutura e perpetua o racismo.

Diante disso, acreditamos que as principais características do afroempreendedorismo, enquanto atividade desenvolvida por profissionais e empresários negros com o objetivo de obter renda, vão além do aspecto econômico e dedicam-se também a suprir demandas ocasionalmente desenvolvidas por problemas sociais, políticos e estruturais. Os afroempreendedores empregam emoções, identidade que demarcam sua etnicidade em seus negócios, eles têm indignações e acreditam na capacidade de alterar cenários a partir de suas redes afroempreendedoras. Todavia, observamos que em sua maioria empreender é construir o passado e o presente de suas histórias, dado suas condições de vida, pois a prática do afroempreendedorismo também demarca as disparidades no ato de empreender entre negros e não-negros, sobretudo ao que se refere ao capital social, econômico e político desses grupos.  

A pesquisa completa está disponível para leitura e download via Slideshare:

Redes Sociais na Internet e a Economia Étnica: um estudo sobre o Afroempreendedorismo no Brasil from Taís Oliveira

 

#SmartDataSprint 2019: para além do engajamento visível

Em sua terceira edição, o Smart Data Sprint ocorreu entre os dias 29 de janeiro a 01 de fevereiro na Universidade Nova de Lisboa, em Portugal. Com liderança de Janna Joceli Omena — Doutoranda em Digital Media na NOVA FCSH e pesquisadora membra do iNOVA Media Lab — a premissa do evento é reunir professores, estudantes e pesquisadores de diversas localidades do mundo para discutir, aprender e aplicar métodos digitais.

Participantes da edição 2019 | Fonte: iNOVA Media Lab

Durante a semana os participantes tiveram a oportunidades de ouvir palestras de professores referenciais como Richard Rogers, Professor Doutor em Novas Mídias e Cultura Digital da Universidade de Amsterdam e também diretor do Digital Methods Initiative e de Bernhard Rieder também Professor Doutor em Novas Mídias e Cultura Digital da Universidade de Amsterdam, membro do DMI e um dos responsáveis pela ferramenta NetVizz, entre outras.

Além disso, o evento contou com as pratical labs — oficinas estilo “mão na massa” sobre ferramentas que podem auxiliar o pesquisador no processo de extração, análise, organização e visualização de dados, como query design, análise de redes com Gephi, visualização de dados com RawGraph, análise de redes com NodeXl, entre outras.

A ideia é aplicar o aprendizado das pratical labs (e/ou de experiências anteriores) nos projetos sugeridos previamente e que foram trabalhados em pequenos grupos durante a semana do Smart Data Sprint. Nessa edição foram quatro propostas: Apps de Jornalismo, Circulação de mitos sobre saúde nas mídias sociais: os casos das terapias de detox e o movimento anti-vacina, Interrogando API’s de visualização de Imagens e Frugal Innovation. Entre quarta e sexta-feira os participantes aplicaram metodologias e análise de dados de acordo com a problemática de cada projeto. Para finalizar, no último dia foram apresentados os resultados prévios, dificuldades do caminho percorrido, aspectos importantes descobertos, questões e sugestões.

Todo material (apresentações e relatórios) será disponibilizado em breve, atualizo aqui quando ocorrer. Foi uma semana incrível com muito aprendizado, trocas e reflexões. Para quem já quiser aquecer para a edição de 2020, veja a cobertura fotográfica na página. 😉

[UPDATE: SAÍRAM OS RELATÓRIOS DOS PROJETOS | 21/03]

Foram disponibilizados os relatórios dos projetos desenvolvidos no Smart Data Sprint. O material apresenta o tema, facilitadores, equipe de pesquisadores, a problemática e questões que norteiam a pesquisa, além da metodologia utilizada, os dados encontrados e uma discussão de todos os insights do projeto. Provavelmente alguns tópicos virarão artigos mais detalhados futuramente, como no caso do Interrogating API’s (do qual eu participei) que tem por si vários tópicos muito específicos. Abaixo o link e uma breve descrição de cada um.

Projeto Interrogating Vision APIs: o objetivo foi de comparar três API’s de análise de imagens (Google, IBM, e Microsoft), três bancos de imagens (Shutterstock, Adobe Stock e Getty Images) e especificações culturais, conceituais e de categorização das API’s por nacionalidades e assim tentar encontrar nuances para uma análise de crítica.

Projeto Journalism Apps: a ideia era de explorar as informações possíveis dos aplicativos de jornalismo no Google Play Store, sobretudo a partir das dinâmicas de categorização, palavras-chave e apps relacionados.

Projeto Health myths’ circulation on social media: the cases of detox therapies, anti-vaxxers and zika epidemics: nesse projeto a missão era averiguar as controvérsias entre o discurso de saúde via detox e o movimento anti-vacina em diversas plataformas de mídias sociais.

Projeto Frugal Inovation: ainda em processo de escrita.