#30diasporRafaelBraga: Rede de Solidariedade e Indignação

Durante todo o mês de junho acontece na internet e em espaços físicos da cidade de São Paulo e região metropolitana a campanha #30diasporRafaelBraga organizada por de profissionais e estudiosos de diversas áreas como comunicação, história, direito, psicologia, pedagogia, entre outras.

O caso Rafael Braga tem grande relevância em alguns movimentos sociais por se tratar de um dos episódios de maior incoerência jurídica brasileira da atualidade. Esses movimentos sugerem que tais incoerências teriam como motivação o fato de Rafael ser pobre, negro, catador de recicláveis e morador de favela na cidade do Rio de Janeiro.

Apesar de não ter participado, Rafael Braga foi o único condenado em relação às manifestações populares de junho de 2013, acusado de portar material para a confecção de coquetel molotov – desinfetante e água sanitária – que posteriormente comprovou-se que o composto não é capaz de criar líquido inflamável. Para compreender o contexto, o Movimento Pela Liberdade de Rafael Braga disponibiliza em seu site uma linha do tempo com os fatos e datas que concatenam o caso.

Ao fazer uma análise da maior dentre as páginas que pautam o caso Rafael Braga, a “Pela Liberdade de Rafael Braga Vieira” com 34.488 likes, percebemos uma maior sequência de conteúdos postados e, consequentemente, maior interação no último mês (de 17/4 – 29/5). Notamos também a participação de artistas, mídias alternativas e pessoas de várias localidades, inclusive fora do Brasil, em países como Alemanha, Estados Unidos, Japão e Uruguai. O incentivo ao apoio e suporte à família de Rafael Braga também é bastante recorrente, afinal era dele que vinha parte do sustento da casa. Ou seja, a rede de solidariedade e indignação em torno do caso é grande e significativa, sobretudo a indignação por identificação que reforça  que não há nem homogeneização dos membros da nação em termos culturais e de identidade (CANCLINI, 2015) e nem em termos de justiça quando aspectos identitários são levados a júri.

Se você não está familiarizado com essa pauta, deixo abaixo dois vídeos que sintetizam os últimos anos de Rafael Braga e convido a curtir a página #30diasporRafaelBraga e acompanhar todas as ações e debates.

 

 


Bibliografia citada: 

CANCLINI. Nestor A. Diferentes, desiguais e desconectados: mapas da interculturalidade. 3ª ed. 1ª reimp. Rio de Janeiro: UFRJ, 2015.

História da Psicologia e as Relações Étnico-Raciais

Como comentei no post sobre propostas e projetos do ano, sugeri ao Conselho Regional de Profissionais de Relações Públicas da 2ª região, da qual sou registrada, a criação de um comitê de enfrentamento ao racismo. Particularmente eu não tenho experiência no desenvolvimento de projetos nesse escopo, então o primeiro passo para estruturar a ideia foi fazer um benchmarking em comitês de mesmo tema já encaminhados, como o do Conselho Regional de Psicologia.

Conheci as ações de relações étnico-raciais do CRP acompanhando o trabalho da Ivani Oliveira que além de ser um contato pessoal, também é psicóloga e conselheira pertencente ao comitê. Além da Ivani, pude conversar sobre esse assunto com a Bárbara Oliveira Pina que é psicóloga e atende na Casa Feminaria (em outra oportunidade falarei com mais detalhes sobre a Casa). A Bárbara me emprestou o DVD História da Psicologia e as Relações Étnico-Raciais que conta sobre a abordagem da psicologia com viés racial e como ocorreu a estruturação do comitê de enfrentamento ao racismo no regional.

“Não há um desconhecimento do racismo. Todo mundo sabe que o racismo existe, mas há uma resistência, uma recusa em pensar o Brasil a partir da sua história. Não é possível pensar o país sem a gente pensar que ele foi fundado na violência contra negros e indígenas” são com as palavras da Psicóloga Maria Lúcia da Silva que se inicia o documentário do CRP. O material é dividido em sessões para contextualização de períodos e os avanços da psicologia, como: Brasil colonia, desconstrução do determinismo biológico, projeto Unesco nos anos 50, estudos da interculturalidade, conhecimentos tradicionais nos anos 70, psicologia e as relações étnico-raciais nos anos 90 e relata o maior envolvimento dos conselhos de psicologia na organização de debater e produção de conhecimentos acerca da pauta a partir dos anos 2000.

Entre as campanhas e eventos uma outra ação prática do conselho foi a criação e aplicação na resolução 018/2002 que estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação a preconceito e discriminação racial.  Em resumo e como explica a psicóloga Ivani Oliveira “a resolução é um enfrentamento ético ao racismo, trata do compromisso que o profissional assume em não promover e nem ser conivente com a discriminação racial”. Durante o documentário ficou claro que a organização precisou assumir sua parcela de passividade e colaboração com o racismo institucional. Somente a partir da pressão de militantes, profissionais e estudantes negros que o órgão passou a incluir em suas propostas de atuação o debate acerca do tema. A partir de então o racismo enquanto vertente de debate vem recebendo esforços para que seja posto em voga como um elemento transversal em todos os vieses da psicologia.

Outro ponto bastante relevante nas falas foi a questão da interconexão com outras disciplinas, como a sociologia, história e antropologia para a compreensão da narrativa e da realidade da sociedade brasileira, sobretudo dos grupos centrais interessantes ao comitê. E ainda, a enfase na aprendizagem contínua e na escuta ativa de tais grupos para a absorção de saberes que haverão de ser utilizados no desenvolvimento de práticas do CRP.

Bom, o material é todo muito rico e importante para a temática. Quem quiser assistir tem disponível no Youtube.