Conteúdo on-line para fortalecer as diferenças: análise do Por Dentro da África

artigo produzido como requisito de avaliação para a disciplina Teoria Social Contemporânea no Programa de Pós-Graduação em Ciências Humanas e Sociais na UFABC.

 

O artigo tem como objetivo analisar o conteúdo do site Por Dentro da África a partir de Canclini (2015) a respeito da internet como objeto de pesquisa e a comunicação como um dos pilares para pensar as contradições da sociedade e afirmar diferenças. Para tanto nos apoiaremos nas concepções de globalização como um novo regime (CANCLINI, 2007), como intensificadora das relações sociais (GIDDENS, 1991) e como fábula e perversidade (SANTOS, 2001).


O recente desenvolvimento das ferramentas de comunicação tem grande importância na configuração da sociedade moderna no contexto da globalização, aqui nos interessa principalmente a possibilidade de encurtamento das relações sociais independente de proximidade geográfica, mas com cada vez mais conexões por interesses em comum e a velocidade com que as notícias transitam, ambas características possibilitadas pela rede mundial de dispositivos conectados na internet (LÉVY, 2010). Para Canclini (2007, p. 31) “as teorias comunicacionais nos lembram que a conexão e desconexão com os outros são parte da nossa constituição como sujeitos individuais e coletivos” e “já não se trata de decidir se é aceitável considerar a internet como objeto de estudo (…) será possível fazer investigação sem internet?” (2007, p.188) é a partir dessas concepções que pretendemos analisar o conteúdo do site Por Dentro da África para verificar se os mesmos são instrumentos de afirmação das diferenças. Assim como afirma Bardin (2011, p. 20) “por detrás do discurso aparente geralmente simbólico e polissêmico esconde-se um sentido que convém desvendar”.

Por “diferenças” ou “os diferentes”, Canclini (2007) afirma que são aqueles que não se enquadram nos padrões homogeneizados impostos pela globalização. Para o autor, os recursos interculturais são decisivos para construir alternativas para entender que “os diferentes são o que são, em relações de negociação, conflito e empréstimos recíprocos” (2007, p. 17) e assim criar maneiras de ressaltar suas identidades sem necessariamente adotar um padrão preconcebido pelos efeitos da globalização.

Globalização por Giddens, Canclini e Milton Santos

A globalização é um termo que carece de definição consensual, talvez por se tratar de um fenômeno em constante atualização a partir dos fatos sociais na contemporaneidade. Para Canclini (2007), a fragmentação é uma característica estrutural dos processos desse fenômeno, a globalização, portanto, se apresenta como um conjunto de processos de homogeneização e deve ser percebida como o resultado de múltiplos movimentos, em parte contraditórios, mas que formam um conjunto de narrativas. Já Giddens (1991) afirma que a globalização pode ser definida como uma intensificação das relações sociais em escala mundial. Dessa forma ela permite conexões sociais além do tempo-espaço e essas relações, por sua vez, tendem a fortalecer pressões de autonomia local e identidade cultural. Podemos falar de identidade cultural a partir do que Canclini (2007) considera diferente e que necessita ser fortalecido, para o autor demarcar a diferença é um ato básico de dignidade de determinados grupos sociais e o primeiro passo para que ela continue a existir.

Para Milton Santos (2001) a globalização tem três faces: a fábula – que prega uma suposta homogeneização e consumo; a perversa – a que vivenciamos atualmente com aumento exponencial de desemprego, pobreza, desabrigo, mortalidade infantil entre outros problemas sociais; e uma outra globalização possível, da qual o autor sugere a apropriação das bases técnicas para serviço dos fundamentos sociais e políticos. Nesse último aspecto há concordância em Giddens (2000), quando o autor afirma considerar a globalização um fenômeno novo e revolucionário, principalmente em razão da evolução dos meios de comunicação que “influenciam dramaticamente todos os aspectos da globalização desde a primeira introdução da impressora mecânica na Europa” (p. 71).

Canclini (2007) assume veementemente sua visão para analisar a globalização:

Para tratar dos processos globalizadores, deve se falar, sobretudo, de gente que migra ou viaja, que não vive onde nasceu, que troca bens e mensagens com pessoas distantes, que assiste o cinema e televisão de outros países ou conta histórias em grupo sobre o país que deixou. Gente que se reúne para celebrar alguma coisa distante ou se comunica por correio eletrônico com outras pessoas que não sabe quando irá rever. De certo modo, sua vida está em outro lugar. Quero pensar a globalização dos relatos que mostram, junto com sua existência pública, a intimidade de contatos interculturais sem os quais ela não seria o que é. Como a globalização não apenas homogeneíza e nos aproxima, mas também multiplica as diferenças e gera novas desigualdades, não se pode valorar a versão oficial das finanças e da mídia globalizada – que nos prometem a onipresença – sem ao mesmo tempo entender a sedução e o pânico de chegar facilmente a certos lugares e interagir com seres diferentes. Além do risco de nos sentirmos excluídos ou de sermos condenados a conviver com quem não queremos. Como a globalização não consiste na disponibilidade de todos para todos, nem na possibilidade generalizada de entrar em todos os lugares, é impossível entendê-la sem os dramas da interculturalidade e da exclusão, sem as agressões ou autodefesas cruéis do racismo e as disputas, amplificadas em escala mundial, para marcar a diferença entre o outro que escolhemos e o vizinho compulsório. A globalização sem a interculturalidade é “OCNI”, um objeto cultural não identificado. (p. 46)

 

A visão de Canclini sobre a globalização é que motiva a análise pretendida no artigo, buscamos verificar se o conteúdo do site Por Dentro da África contém relatos do fortalecimento de suas identidades culturais e da interculturalidade, que para Canclini trata-se da “confrontação e ao entrelaçamento, àquilo que sucede quando os grupos entram em relações e trocas” (2015, p. 17).

O site Por Dentro da África é formado por uma equipe espalhada por diversos países do continente africano como Guiné-Bissau, Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e por pessoas do Brasil, Argentina, Portugal e Alemanha. Apenas para contextualizar, o continente africano, como explica Munanga (2009), tem 56 países e cerca de 600 milhões de habitantes com etnias, línguas e culturas diversas. Nem todas as pessoas que compõem o site Por Dentro da África são nativas, algumas são estudiosas de temas relacionados ao continente africano, desde política, artes, negócios, direitos humanos, negócios e meio ambiente. Pretendemos verificar se o conteúdo do site sugere proteção do idioma, da história e aspectos culturais, participação nas comunicações para proporcionar à sociedade informações e repertórios culturais.

Para tanto selecionamos 10 artigos publicados no mês de maio de 2017 no site Por Dentro da África para a análise de conteúdo. Bardin (2011) considera a análise do conteúdo um procedimento sistematizado de técnicas que visam a descrição das mensagens a partir de indicadores que propiciem a inferência de conhecimentos sobre a produção e recepção destas mensagens. Além da coleta do conteúdo e para auxiliar na análise qualitativa do material, faremos a mineração do texto com a ferramenta desenvolvida pelo Grupo de Pesquisa Gtech.Edu da UFRGS para mineração de texto Sobek Mining que seleciona, a partir da leitura automática dos textos, os termos recorrentes e os apresenta em forma de grafos (LORENZATTI, 2007).

Abaixo a tabela com títulos, resumos do conteúdo, categoria central definida pelo editor do site e os principais termos minerados pela ferramenta Sobek Mining:

TÍTULO DO TEXTO RESUMO DO CONTEÚDO CATEGORIA CENTRAL PRINCIPAIS CONCEITOS
Belo Horizonte: Exposição retrata período da escravidão no Brasil Divulgação de evento sobre o período da escravidão da qual as mulheres são o tema centra. Cultura Exposição, Belo Horizonte, Lofgren e Patrícia Gouvêa, maio, período da escravidão, artistas, Isabel, Mãe Preta
Zâmbia tenta reencontrar a história em Copa do Mundo Sub-20 Divulgação da Copa do Mundo sub-20 de futebol, destaque para os times africanos. Esporte South Africa, país, fase, futebol, base, equipe, Guiné, torneio, Copa, Zâmbia, grupo, final, avançar, Sul
Eleições em Angola: Aplicativo será usado para denunciar abusos e fraudes Explica como acontecerão as eleições em Angola pelo aplicativo “zuela”. Notícias Angola, José Eduardo dos Santos, Presidente da República, direitos, presidente, processo, dados, MPLA, aplicativo, ferramenta, eleições
Rio de Janeiro recebe Fórum Itinerante de Cinema Negro Divulgação de data e programação do festival de cinema negro na cidade do Rio de Janeiro. Cultura FINCINE, filmes, Rio de Janeiro, Itinerante de Cinema Negro, mulheres, cinema
Nigéria: Relatório detalha violações contra crianças promovidas pelo Boko Haram Relata os abusos e violências sofridos por crianças na Nigéria pelo Boko Haram. Direitos Humanos Boko Haram, relatório, grupo, período avaliado, suicidas, ataques, uso de crianças, violações, Nigéria, integrantes, escolas, ataques
Agroindústria poderá expulsar camponeses de suas terras na Zâmbia Relata a possível transição de agricultura família para agroindústria o que afetará as famílias da Zâmbia. Negócios Agriculturas familiares, terras, Zâmbia, camponeses, relatora, especial, Elver, Direito
Relatório destaca os desafios da urbanização rápida em cidades africanas Relata a falta de acesso à moradia da população de Bamako em Mali. Economia Infraestrutura, Cidades, Bamako, relatório, desenvolvimento, cidades africanas, rápido, crescimento
Congolinária: “Usamos a gastronomia para contar a nossa história”, diz Pitchou Luambo Conta a história do congolês refugiado no Brasil que montou um restaurante de culinária típica de seu país para assegurar suas raízes. Cultura República Democrática do Congo, campanha, anos, Congolinária, animais, direitos, Pitchou, projeto, terra, Brasil, defesa, cultura, mulheres, congolesa, comida, advogado, história, congolês
“Pintar permite reivindicar questões abandonadas pelos líderes”, diz Roberto Mendes Entrevista com o artista plástico de Guiné Bissau que conta como usa a arte para emitir críticas sociais. Cultura Guiné Bissau, trabalho, Robert, poesia, anos, cultura, pintura, Portugal, guineense, poeta, Guiné, artista, Malangatana, artísticas
Brasil: ONU e sociedade civil pedem sanção sem vetos da Lei de Migração Relato sobre posição favorável da ONU e de diversos grupos da sociedade civil em relação à Lei de Migração no Brasil. Direitos Humanos Organização, Internacional, entidade, direitos humanos, Brasil, migrante, Migrações, Migração, refúgio, legislação, pessoas, nova lei, Lei, projeto, regularização, migratória

Como podemos notar na tabela a categoria central por mais vezes abordada foi cultura (4), seguidos de direitos humanos (2), esporte (1), economia (1), notícias (1) e negócios (1). Quando o assunto é direitos humanos as questões levantadas tratam dos problemas de suprimentos básicos da população como eleições, moradia, proteção aos direitos e segurança das famílias e das crianças e de leis sobre migrantes e refugiados em outros continentes, como no caso da Lei do Migrante debatida recentemente no Brasil. A partir das palavras mineradas pelo Sobek Mining podemos verificar como cidades, países e nomes de pessoas são citadas nos textos e ainda o destaque e frequência de termos como “período da escravidão”, “cultura” e “história”, podemos verificar então, que o conteúdo reforça a ideia de identidade e diferença levantada por Canclini (2015).

Além disso, podemos verificar as características da globalização levantadas pelos autores aqui citados, tais como intensificação das relações sociais (GIDDENS, 1991) – na medida em que o site Por Dentro da África desenvolve uma rede de pessoas de várias localidades e contextos para abordar temas relacionados a um continente específico; a globalização como fábula e perversidade (SANTOS, 2001) – pois o conteúdo destaca problemas sociais provavelmente causados por questões econômicas e de consumo como nos textos sobre violência contra crianças, acesso à moradia, agroindústria e a lei de migração.

No conteúdo sobre migrantes e refugiados, “Brasil: ONU e sociedade civil pedem sanção sem vetos da Lei de Migração” e “Congolinária: ‘Usamos a gastronomia para contar a nossa história’, diz Pitchou Luambo” respectivamente, podemos notar o que Canclini diz sobre falar de “gente que migra ou viaja, que não vive onde nasceu, que troca bens e mensagens com pessoas distantes” (2007, p. 46) para debater a globalização e entender como tais pessoas vivem e sobrevivem a questões como racismo, preconceitos, saudade do país e da família, reforço e resistência cultural.

É possível concluir, portanto, que a comunicação, a internet e a tecnologia apropriadas por determinados grupos sociais podem ser utilizadas para desenvolver uma outra globalização possível, assim como almejava Milton Santos. A partir do conteúdo disponibilizado no site Por Dentro da África se estabelece relações de interesses em comum, como pessoas do continente africano, residentes ou os migrantes em outros países, que buscam reafirmar sua identidade cultural ou até mesmo afrodescendentes que pretendem conhecer suas raízes. Dessa forma, o conteúdo on-line contribui para a constituição do indivíduo e do coletivo.

Em relação ao questionamento levantado por Canclini em “será possível fazer investigação sem internet?” (2007, p.188), podemos perceber a internet e a maneira como ela é utilizada é de grande valia para pesquisas nos mais variados campos do saber. Assim podemos considerá-la um campo repleto de informação a serem observadas e interpretadas.

Como funciona o Sobek Mining

A princípio a ferramenta tem como objetivo apoiar atividades educacionais sobre leitura e escrita. Basta copiar o conteúdo, colar na área de transferência e clicar em enviar. Então, na medida em que se extrai dos textos seus principais conceitos é possível utilizar de forma pedagógica o confronto da compreensão pelos diagramas gerados no Sobek.

Abaixo alguns exemplos das redes de alguns textos analisados no artigo (clique em ‘abrir em nova aba’ para visualizar melhor).

Exemplo da rede de palavras do texto ‘Zâmbia tenta reencontrar a história em Copa do Mundo Sub-20’.

Exemplo da rede de palavras do texto ‘Brasil: ONU e sociedade civil pedem sanção sem vetos da Lei de Migração’.

Exemplo de rede de palavras do texto ‘Relatório destaca os desafios da urbanização rápida em cidades africanas’.

 

Suponho que também é possível utilizar a ferramenta para outros fins, como a própria análise do conteúdo proposto no presente artigo e até estratégia de produção editorial, como extrair de um manual da marca os principais conceitos a serem produzidos para uma determinada ação nas mídias sociais.

Bibliografia

BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. 1ª ed. 1ª reimp. São Paulo: Edições 70, 2011.

CANCLINI, Nestor A. A Globalização Imaginada. 1ª reimp. São Paulo: Iluminuras, 2007.

__________, Nestor A. Diferentes, desiguais e desconectados: mapas da interculturalidade. 3ª ed. 1ª reimp. Rio de Janeiro: UFRJ, 2015.

GIDDENS, Anthony. As consequências da Modernidade. São Paulo: Unesp, 1991.

_________, Anthony. Mundo em Descontrole. Rio de Janeiro: Record, 2000.

LÉVY, Pierre. Cibercultura. 3ª ed. São Paulo: 34, 2010.

LORENZATTI, A. Sobek: uma ferramenta de Mineração de Textos. Trabalho de Conclusão de Curso. Caxias do Sul: departamento de Informática/UCS, 2007.

MUNANGA, Kabengele. Origens africanas do Brasil contemporâneo. São Paulo: Global, 2009.

SANTOS, Milton. Por uma outra Globalização – do pensamento único à consciência universal. 6ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2001.


Como citar esse artigo:

OLIVEIRA, Taís. Conteúdo on-line para fortalecer as diferenças: análise do Por Dentro da África. Disponível em: <http://taisoliveira.me/analise-conteudo-sobek-mining/>

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#30diasporRafaelBraga: Rede de Solidariedade e Indignação

Durante todo o mês de junho acontece na internet e em espaços físicos da cidade de São Paulo e região metropolitana a campanha #30diasporRafaelBraga organizada por de profissionais e estudiosos de diversas áreas como comunicação, história, direito, psicologia, pedagogia, entre outras.

O caso Rafael Braga tem grande relevância em alguns movimentos sociais por se tratar de um dos episódios de maior incoerência jurídica brasileira da atualidade. Esses movimentos sugerem que tais incoerências teriam como motivação o fato de Rafael ser pobre, negro, catador de recicláveis e morador de favela na cidade do Rio de Janeiro.

Apesar de não ter participado, Rafael Braga foi o único condenado em relação às manifestações populares de junho de 2013, acusado de portar material para a confecção de coquetel molotov – desinfetante e água sanitária – que posteriormente comprovou-se que o composto não é capaz de criar líquido inflamável. Para compreender o contexto, o Movimento Pela Liberdade de Rafael Braga disponibiliza em seu site uma linha do tempo com os fatos e datas que concatenam o caso.

Ao fazer uma análise da maior dentre as páginas que pautam o caso Rafael Braga, a “Pela Liberdade de Rafael Braga Vieira” com 34.488 likes, percebemos uma maior sequência de conteúdos postados e, consequentemente, maior interação no último mês (de 17/4 – 29/5). Notamos também a participação de artistas, mídias alternativas e pessoas de várias localidades, inclusive fora do Brasil, em países como Alemanha, Estados Unidos, Japão e Uruguai. O incentivo ao apoio e suporte à família de Rafael Braga também é bastante recorrente, afinal era dele que vinha parte do sustento da casa. Ou seja, a rede de solidariedade e indignação em torno do caso é grande e significativa, sobretudo a indignação por identificação que reforça  que não há nem homogeneização dos membros da nação em termos culturais e de identidade (CANCLINI, 2015) e nem em termos de justiça quando aspectos identitários são levados a júri.

Se você não está familiarizado com essa pauta, deixo abaixo dois vídeos que sintetizam os últimos anos de Rafael Braga e convido a curtir a página #30diasporRafaelBraga e acompanhar todas as ações e debates.

 

 


Bibliografia citada: 

CANCLINI. Nestor A. Diferentes, desiguais e desconectados: mapas da interculturalidade. 3ª ed. 1ª reimp. Rio de Janeiro: UFRJ, 2015.

Profissionais e empreendedores negros, redes sociais e economia étnica

Como comentei em outras ocasiões, estou cursando mestrado em Ciências Humanas e Sociais na UFABC e passado o período de reescrita da proposta venho compartilhar meu objeto de estudo.

Logo depois do processo seletivo pensei em alterar alguns pontos pois percebi que teria obstáculos teóricos no andamento da pesquisa. A primeira proposta era: Análise do discurso na internet: um estudo sobre o afroempreendedorismo. Porém grande parte do referencial de empreendedorismo está no campo da administração, mas minha pesquisa será pelo viés das ciências sociais e eu não queria me distanciar disso. O projeto era ainda mais fragmentado pela questão do ‘afroempreendedorismo’, se empreendedorismo já não teria muita referência, imagina com esse recorte. É um ótimo desafio para doutorado, mas um passo de cada vez, rsss. Outro ponto é que se eu não falasse de profissionais negros talvez análises interessantes ficariam de fora.

Então, aguardei a atribuição de orientação, conversei com minha orientadora e estando ambas em conformidade ganhei uns dias para elaborar a nova proposta, que ficou da seguinte forma: Redes sociais na internet como promotora da economia étnica: um estudo sobre os profissionais e empreendedores negros. 

‘Redes sociais na internet’ me mantém em território conhecido, pois é a área que atuo no mercado da comunicação e que tenho certa bagagem de estudos. Retirei a análise do discurso que seria baseado em Foucault, embora eu vá usá-lo no referencial teórico não é mais um dos temas centrais. E substituí ‘empreendedorismo’ e ‘afroempreendedorismo’ por economia étnica que é um tema já discutido em sociologia econômica e que, vale dizer, estou adorando me aprofundar.

A metologia aplicada será a etnografia para a internet (HINE, 2015) em grupos de temas específicos dentro do Facebook e falar de empreendedores e também de profissionais abre o leque para conteúdos mais diversos. Por motivação pessoal eu já estou em alguns desses grupos há um tempo, aliás foi daí que surgiu a vontade de pesquisar as relações estabelecidas nesses ambientes e por já observá-los vi que alguns tem mais interação que outros, entre esses tem os que não são somente de empreendedores negros, são específicos de profissionais negros e outros ainda me dão a oportunidade de falar do recorte de gênero dentro do recorte de raça. Até então, são mais de 20 grupos diferentes dos quais serão selecionados (ainda não sei sob quais critérios) uns cinco que contenham empreendedores negros, profissionais negros e o recorte de mulheres negras.

Certo, mas e aí o que eu pretendo com isso? Descobrir como os profissionais e empreendedores negros utilizam as redes sociais na internet para promover a economia étnica. Entende-se por economia étnica as movimentações estratégicas de defesa e ajuda mútua de migrantes e de minorias étnicas, sobretudo para propor alternativas às possíveis exclusões e desvantagens no mercado de trabalho formal. Segundo Ivan Light, há duas formas de se caracterizar a economia étnica: estando num posto de decisão (podendo agir por influência para a contratação de co-étnicos) e sendo proprietário de um negócio (decidindo deliberadamente pela contratação de co-étnicos) (LIGHT, 2005). Mas para além do aspecto da contratação também pretendo verificar se existe a oferta de vantagens em relação aos produtos e serviços para membros dessas comunidades étnicas e como ocorre essa abordagem.

Há diversos estudos anteriores baseados na teoria da economia étnica como o de Truzzi e Netto sobre italianos, portugueses e espanhóis, de Grun sobre armênios e de Noronha que aborda empregabilidade étnica de forma mais ampla, porém minha pesquisa tem como premissa pensar a população negra como um grupo que também se articula economicamente, principalmente para tentar burlar os mecanismos racistas da sociedade, e que entendeu o papel fundamental da internet para a criação de “quilombos digitais”. Embora, e isso é uma preocupação no referencial teórico, a população negra no Brasil não pode ser considerada como migrante, pois a nós a escravidão foi imposta violentamente. Optei por falar de diáspora (HALL, 2003) e ainda usar referências de Kabengele Munanga, Joel Rufino dos Santos, Dennis de Oliveira, Mário Theodoro, Pedro Jaime, Clóvis Moura, Ramatis Jacino, Sueli Carneiro, Lélia Gonzales entre outros pesquisadores para a abordagem sócio antropológica da população negra.

Minha formação primeira é em comunicação, então estou numa grande imersão em temas da sociologia econômica e tem sido algo muito surpreendente. No mais positivo dos sentidos. Fazer essa troca de conceitos foi a decisão mais certa até então. E já de antemão agradeço aos docentes Regimeire Maciel, Ramatis Jacino, Paris Yeros e Maximiliano Barbosa pela atenção e sugestões de bibliografia em economia, trabalho e relações étnico-raciais, etc. Enfim, essa é a proposta inicial que pode mudar (e provavelmente mudará) conforme as coisas forem acontecendo, mas espero finalizar da melhor forma. 🙂

Referências bibliográficas

HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: UFMG, 2003.

HINE, C. Ethnography for the internet: embedded, embodiedandeveryday. Huntingdon, GBR: Bloomsbury Publishing, 2015.

LIGHT, Ivan. The Ethnic Economy in N. Smelser e R. Swedberg (org.): The Handbook of Economic Sociology. Princeton EP & Russel Sage, 2005.

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#diadasmulheres | Já leu uma mulher hoje?

O Dia Internacional das Mulheres é o dia oficial dos clichês, por mais que todos os anos nós falemos sobre isso e sobre quais atitudes esperadas sempre vemos o mais do mesmo do show do horror. E aí fazemos o clássico esforço de aproveitar o buzz da data para fortalecer e divulgar o trabalho de mulheres.

Esse ano preparei uma lista com autoras das quais indico contato com a obra, sejam dos livros físicos, dos artigos, pelas poesias ou pelos posicionamentos nas redes sociais.

Carolina Maria de Jesus – mulher negra, foi moradora da favela do Canindé em São Paulo, viveu entre 1914 e 1977, catadora de papelão e mãe de três filhos. Foi para escola com auxílio de um magnata que quis ajudar as crianças pobres do bairro em Minas Gerais. Permaneceu lá apenas até a segunda série, mas aprendeu a ler e escrever. Já em São Paulo, quando encontrava cadernos guardava-os para escrever e assim fazia, principalmente sobre o cotidiano na favela. Carolina é considerada a primeira escritora negra brasileira, sua obra mais conhecida é o Quarto de Despejo que trata sobre a narrativa da favela do Canindé e seu dia-a-dia de trabalho para garantir a sobrevivência da família.

Jarid Arraes – nascida no Ceará, atualmente mora na cidade de São Paulo onde mantêm projetos como Terapia Escrita, Clube da Escrita Para Mulheres e o Clube Leitura Independente. Tem mais de 60 títulos, sendo o mais atual o As Lendas de Dandara. Também tem material produzido para a Artigo 19 e Think Olga.

Maria Clara Araújo – mulher, trans, pobre e negra, cursa Pedagogia pela Federal de Pernambuco onde teve que se matricular com o nome civil e precisou lutar pelo direito de usar o nome social. Ela traz textos excelentes nas redes sociais, tem alguns artigos científicos publicados e escreve no Blogueiras Negras, dentre os vários textos o de maior repercussão é o Por que os homens não estão amando as mulheres trans?

Mel Duarte – paulistana, poetisa e ativista cultural, integrante do Coletivo Ambulantes e do Slam das Minas. Na abertura da Flip 2016, Mel Duarte representou a comunidade de escritoras(es) negras(os) endossando por meio da poesia os protestos pela baixa representatividade do evento. Possui dois livros publicados, sendo o mais recente o Negra Nua Crua.

Sueli Carneiro – é doutora em Educação pela USP e diretora do Geledés Instituto da Mulher Negra. Teórica sobre as questões da mulher negra, também teve (e tem) forte influência em movimentos políticos, sobretudo no estado de São Paulo. Além disso, é autora do livro Racismo, Sexismo e Desigualdade no Brasil que reúne uma coletânea de vários dos seus artigos.

Luana Protazio – tem 20 anos, reside em Bauru (interior de SP), estudante de relações públicas e integrante dos movimentos de hip hop da cidade. Luana é idealizadora e autora no blog Elogie Uma Irmã Negra que traz periodicamente textos de análises e críticas excelentes. Um dos mais atuais e importantes temas fala do racismo no carnaval no artigo Tire o seu racismo da folia.

Suzane Jardim – é historiadora e pesquisadora, sobretudo em temáticas sobre a História Negra. Nas redes sociais e em outras plataformas trata com muito didatismo temas polêmicos sobre questões atuais dos movimentos feminista e negro. Recentemente teve análise publicada no Jornal Nexo sobre documentários que tratam de racismo e violência policial.

Conceição Evaristo – mineira de Belo Horizonte, sua mãe era lavandeira e assim como Carolina Maria de Jesus mantinha um diário para escrever sobre seu dia-a-dia. Quando jovem, Conceição trabalhava como empregada doméstica para se manter. Mudou-se para o Rio de Janeiro para estudar Letras na UFRJ, depois tornou-se mestre em Literatura Brasileira (PUC/RJ) e doutora em Literatura Comparada (UFF). Entre suas obras, a mais recente é Olhos D’água, uma ficção que trata da pobreza e violência do urbana da população negra.

Aproveitando que citei o boicote à Flip 2016, em junho do ano passado presenciei lá na SOF um ótimo bate-papo sobre mulheres negras na literatura, pautado justamente por essa ocasião. Nessa noite estiveram presentes Miriam Alves, Bianca Santana e Jenyffer Nascimento e o vídeo está completo no youtube. <3

História da Psicologia e as Relações Étnico-Raciais

Como comentei no post sobre propostas e projetos do ano, sugeri ao Conselho Regional de Profissionais de Relações Públicas da 2ª região, da qual sou registrada, a criação de um comitê de enfrentamento ao racismo. Particularmente eu não tenho experiência no desenvolvimento de projetos nesse escopo, então o primeiro passo para estruturar a ideia foi fazer um benchmarking em comitês de mesmo tema já encaminhados, como o do Conselho Regional de Psicologia.

Conheci as ações de relações étnico-raciais do CRP acompanhando o trabalho da Ivani Oliveira que além de ser um contato pessoal, também é psicóloga e conselheira pertencente ao comitê. Além da Ivani, pude conversar sobre esse assunto com a Bárbara Oliveira Pina que é psicóloga e atende na Casa Feminaria (em outra oportunidade falarei com mais detalhes sobre a Casa). A Bárbara me emprestou o DVD História da Psicologia e as Relações Étnico-Raciais que conta sobre a abordagem da psicologia com viés racial e como ocorreu a estruturação do comitê de enfrentamento ao racismo no regional.

“Não há um desconhecimento do racismo. Todo mundo sabe que o racismo existe, mas há uma resistência, uma recusa em pensar o Brasil a partir da sua história. Não é possível pensar o país sem a gente pensar que ele foi fundado na violência contra negros e indígenas” são com as palavras da Psicóloga Maria Lúcia da Silva que se inicia o documentário do CRP. O material é dividido em sessões para contextualização de períodos e os avanços da psicologia, como: Brasil colonia, desconstrução do determinismo biológico, projeto Unesco nos anos 50, estudos da interculturalidade, conhecimentos tradicionais nos anos 70, psicologia e as relações étnico-raciais nos anos 90 e relata o maior envolvimento dos conselhos de psicologia na organização de debater e produção de conhecimentos acerca da pauta a partir dos anos 2000.

Entre as campanhas e eventos uma outra ação prática do conselho foi a criação e aplicação na resolução 018/2002 que estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação a preconceito e discriminação racial.  Em resumo e como explica a psicóloga Ivani Oliveira “a resolução é um enfrentamento ético ao racismo, trata do compromisso que o profissional assume em não promover e nem ser conivente com a discriminação racial”. Durante o documentário ficou claro que a organização precisou assumir sua parcela de passividade e colaboração com o racismo institucional. Somente a partir da pressão de militantes, profissionais e estudantes negros que o órgão passou a incluir em suas propostas de atuação o debate acerca do tema. A partir de então o racismo enquanto vertente de debate vem recebendo esforços para que seja posto em voga como um elemento transversal em todos os vieses da psicologia.

Outro ponto bastante relevante nas falas foi a questão da interconexão com outras disciplinas, como a sociologia, história e antropologia para a compreensão da narrativa e da realidade da sociedade brasileira, sobretudo dos grupos centrais interessantes ao comitê. E ainda, a enfase na aprendizagem contínua e na escuta ativa de tais grupos para a absorção de saberes que haverão de ser utilizados no desenvolvimento de práticas do CRP.

Bom, o material é todo muito rico e importante para a temática. Quem quiser assistir tem disponível no Youtube.