Black Money, afroempreendedorismo e economia étnica

Na minha dissertação estudo afroempreendedorismo [nas mídias sociais] a partir da perspectiva de economia étnica (o sociólogo Ivan Light da Universidade da California é a referência aqui). Logo, em algum momento vou ter que contextualizar o “Black Money”, mas eu ainda não cheguei num nível de aprofundamento pra contribuir de forma efetiva nesse debate.

Mas de economia étnica posso dar uns pitacos. Economia étnica é o esforço coletivo de fazer circular não só o dinheiro, mas empregabilidade e oportunidades de crescimento profissional num determinado grupo étnico, em geral grupos que imigraram.

Dando um breve search no Google Acadêmico por “economia étnica” é possivel encontrar diversos artigos (a UFSCAR tem um trabalho enfático no tema), mas com foco em armênios, italianos, espanhóis, japoneses, chineses, se pah dá pra encontrar até de marcianos, jupiterianos, etc.

Mas a perspectiva dessa análise com foco em negros é inexistente. Primeiro, do meu ponto de vista, pq quando nos estudam só focam nas nossas dores, no racismo, na violência, na pobreza, etc. Segundo, pq nós não migramos, nós fomos sequestrados e escravizados pra gerar riqueza para outros grupos étnicos. Desse ponto de vista pode haver um conflito com a teoria (e a gente tá aqui é pra conflitar mesmo), mas nos demais aspectos, sobretudo no sentido de comunidade, a economia étnica faz bastante sentido no contexto que venho observando nas atuais movimentações de afroempreendedorismo.

Eu concordo que é um pouco inviável querer aplicar o “Black Money” dos EUA aqui. Os contextos são diferentes, o nosso próprio entendimento de negritude não é maduro, nós temos problemas sociais básicos sem uma perspectiva de resolução, nós temos um extermínio da população negra em curso, nós estamos vivenciando um retrocesso de todas as políticas públicas de afirmação (dentre as quais tive a oportunidade de estar na academia). E sim, pode existir divergências conceituais do termo. E sim, entendo que a grande crítica ao “Black Money” é o fato dele estar atrelado à estrutura bancária, mas qual outra solução viável existe pra esse ponto?

Mas uma coisa não inviabiliza a outra e é por isso, imagino eu, que as pessoas se engajam em causas diversas. Que no fim das contas todas são para melhorias de um determinado grupo social.

Também concordo que a estrutura da sociedade só muda a partir de políticas públicas de longo prazo e aí a gente agradece os que estão à longa data lutando por isso. Mas no curto prazo e individualmente é dinheiro sim que muda a vida das pessoas. É esse o sistema que a gente vive, infelizmente. E as coisas não vão se alterar do dia pra noite como num passe de mágica.

Eu posso muito bem me engajar em questões relacionadas às políticas públicas, mas também posso querer que os pretos ganhem dinheiro trabalhando arduamente (e a gente sabe que empreendedor trabalha muito mais que 8 hrs por dia) e promovam atividades que nos fortaleçam.

Os armênios, italianos, espanhóis, japoneses, chineses, marcianos e jupiterianos fizeram e fazem isso e ainda são temas nas universidades. Pq a gente não pode também?

PS: textão publicado primeiro no Facebook, relevem o internetês.

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