Livro – Diferentes, Desiguais e Desconectados

O livro Diferentes, Desiguais e Desconectados (3ª edição, 2009) é uma obra do antropólogo argentino Néstor García Canclini, autor que tem um vasto repertório nos estudos culturais e trabalha principalmente com foco na América Latina. Nesse texto, especificamente, ele trata da multiculturalidade e da interculturalidade dos povos latino-americanos no contexto da globalização e a partir daí discute como as diferenças geram desigualdades e desconexões.

O livro levanta questões acerca dos novos arranjos sociais em decorrência da globalização e vai na contramão da homogeneização da sociedade pregada por entusiastas da “pós-modernidade”, busca encontrar caminhos a partir do saber interdisciplinar (antropologia, sociologia e comunicação) como artefato para reconhecer as diferenças, corrigir as desigualdades e entender como conectar as maiorias às redes globalizadas. Canclini, além de focar nos povos latino-americanos, deixa claro já no início do texto que tem como autores de referência Pierre Bourdieu, Clifford Geertz e Paul Ricoeur, tanto que o terceiro capítulo ele faz uma análise das ideias de Geertz e Bourdieu.

Na introdução ele discute bastante a questão da identidade e define multiculturalidade e interculturalidade, a primeira trata da justaposição de etnias ou grupos em uma cidade ou nação e supõe aceitação do heterogêneo, já a segunda “implica que os diferentes são o que são, em relações de negociação, conflito e empréstimos recíprocos” (p. 17), ou seja, não há (ou não deveria) existir a necessidade de “aceitar” ou o famoso “tolerância” aos diferentes, mas apenas as relações entre grupos diferentes de forma natural.

“As teorias comunicacionais nos lembram que a conexão e desconexão com os outros são parte da nossa constituição como sujeitos individuais e coletivos. Portanto, o espaço inter é decisivo. Ao postulá-lo como centro das investigações e da reflexão, estas páginas buscam compreender as razões dos fracassos políticos e participar da mobilização de recursos interculturais para construir alternativas”. (p. 31)

Por várias Canclini critica a unicidade e o universalismo epistemológico de cultura do “pós-modernismo”, no segundo capítulo o autor propõe uma conceituação de cultura com a preocupação nas diferenças, então afirma que que “cultural” seria o termo mais adequado, pois mesmo indo na contramão ou além da definição de cultura por Geertz “um sistema de significados”, o termo enquadrado no adjetivo faria mais sentido enquanto recurso para os diferentes, afirma ser o cultural um “choque de significados nas fronteiras; como a cultura pública que tem sua coerência textual mas é localmente interpretada; como redes frágeis de relatos e significados tramados por atores vulneráveis em situações inquietantes; como as bases da agência e da intencionalidade das práticas sociais correntes” (citando Ortner na p. 48).

Tela do seminário sobre o texto para a disciplina de Sociedade da Informação: Cultura, Comunicação e Mídia na UFABC | Por Bruno Giordano e Taís Oliveira

Para falar de identidade, apropriação e consumo de bens culturais, Canclini aborda o conceito de sociossemiótica da cultura que é o processo de produção, circulação e consumo de significações na vida social e das quatro tendências da cultura como processo sociomaterial e significante: 1) cultura em que cada grupo organiza sua identidade; 2) cultura como uma instancia simbólica da produção e reprodução da sociedade; 3) cultura como uma instancia da conformação do consenso e da hegemonia; e 4) cultura como dramatização eufemizada dos conflitos sociais.

Para o autor a globalização neoliberal mais do que resolver põe em evidencia as dificuldades que persistem quando se quer articular diferenças, desigualdades, procedimentos de inclusão-exclusão e as formas atuais de exploração e reafirma que a problemática da desigualdade econômica reside principalmente nos processos históricos da configuração social. E observa, sobretudo, a demanda étnico-política dos que desejam ser reconhecidos nas suas diferenças e viver em condições menos desiguais. O principal questionamento é como converter em fortaleza esse desencontro entre afirmação e diferença e impugnações à desigualdades?

Na segunda parte do livro o autor foca em falar com mais ênfase na América Latina, então fala sobre nominalismo, ou melhor, a falta de um nome único para as várias culturas latinas. E guia parte das páginas seguintes a partir das seguintes questões: Como ir além de definições ingênuas da subjetividade para construir um trabalho sólido para cidadanias possíveis? Que tarefas de investigações teóricas e políticas são necessárias? Como ser representados enquanto sujeito numa dominação completa da mídia? Como ser receptores ativos?

Tela do seminário sobre o texto para a disciplina de Sociedade da Informação: Cultura, Comunicação e Mídia na UFABC | Por Bruno Giordano e Taís Oliveira

Canclini traz de maneira brilhante críticas ao conceito de pós-moderno, fala da situação dos migrantes em contra-ponto aos nômades por escolha (ou os mais conhecidos atualmente por nômades digitais), fala também dos processos interculturais e das leis de proteção social que não acompanham a abertura cultural da condição globalizada, aborda a questão do lugar de fala e da necessidade de ir além do ponto de vista das elites do conhecimento. Isso tudo para tentar traçar uma reflexão sobre como a globalização pode ser menos excludente e a respeito da necessidade de políticas regionais e mundiais para a garantia da diversidade cultural.

#30diasporRafaelBraga: Rede de Solidariedade e Indignação

Durante todo o mês de junho acontece na internet e em espaços físicos da cidade de São Paulo e região metropolitana a campanha #30diasporRafaelBraga organizada por de profissionais e estudiosos de diversas áreas como comunicação, história, direito, psicologia, pedagogia, entre outras.

O caso Rafael Braga tem grande relevância em alguns movimentos sociais por se tratar de um dos episódios de maior incoerência jurídica brasileira da atualidade. Esses movimentos sugerem que tais incoerências teriam como motivação o fato de Rafael ser pobre, negro, catador de recicláveis e morador de favela na cidade do Rio de Janeiro.

Apesar de não ter participado, Rafael Braga foi o único condenado em relação às manifestações populares de junho de 2013, acusado de portar material para a confecção de coquetel molotov – desinfetante e água sanitária – que posteriormente comprovou-se que o composto não é capaz de criar líquido inflamável. Para compreender o contexto, o Movimento Pela Liberdade de Rafael Braga disponibiliza em seu site uma linha do tempo com os fatos e datas que concatenam o caso.

Ao fazer uma análise da maior dentre as páginas que pautam o caso Rafael Braga, a “Pela Liberdade de Rafael Braga Vieira” com 34.488 likes, percebemos uma maior sequência de conteúdos postados e, consequentemente, maior interação no último mês (de 17/4 – 29/5). Notamos também a participação de artistas, mídias alternativas e pessoas de várias localidades, inclusive fora do Brasil, em países como Alemanha, Estados Unidos, Japão e Uruguai. O incentivo ao apoio e suporte à família de Rafael Braga também é bastante recorrente, afinal era dele que vinha parte do sustento da casa. Ou seja, a rede de solidariedade e indignação em torno do caso é grande e significativa, sobretudo a indignação por identificação que reforça  que não há nem homogeneização dos membros da nação em termos culturais e de identidade (CANCLINI, 2015) e nem em termos de justiça quando aspectos identitários são levados a júri.

Se você não está familiarizado com essa pauta, deixo abaixo dois vídeos que sintetizam os últimos anos de Rafael Braga e convido a curtir a página #30diasporRafaelBraga e acompanhar todas as ações e debates.

 

 


Bibliografia citada: 

CANCLINI. Nestor A. Diferentes, desiguais e desconectados: mapas da interculturalidade. 3ª ed. 1ª reimp. Rio de Janeiro: UFRJ, 2015.

Desvendando os códigos do Afro-Empreendedorismo

Praticamente complementando o evento do dia anterior, na quinta-feira passada, 18, aconteceu o Black Codes: Desvendando os códigos do Afro-Empreendedorismo no espaço Cubo Cowrking em São Paulo. Promovido pelo Instituto Feira Preta e pela consultoria Black Codes, em parceria com o Consulado Americano, o evento trouxe uma roda de conversa com empreendedores negros e palestra com Eugene Cornelius Jr da Small Bussines Administration.

Na sequência: Regina Pfiffer, Juliana Martins, Yan Ragede, Fernando Cândido, Fernanda Leôncio, e Diego Gervaes

Com mediação de Regina Pfiffer da Aliança Empreendedora, a mesa foi composta por Juliana Martins da Cerveja Kula, Yan Ragede da Afrobox, Fernando Cândido do Rap Burger (que já está nos meus cases pela ótima atuação nas mídias sociais), Fernanda Leôncio da Afrobusiness (do evento que tive o prazer de palestrar na outra semana) e Diego Gervaes da Black Codes. Os painelistas contaram sobre seus empreendimentos, diferenciais competitivos, conquistas e desafios sobre ser negro e empreendedor no Brasil.

Na sequência ocorreu a palestra de Eugene Cornelius Jr que, a partir do que foi compartilhado na mesa, afirmou “Me convidaram para falar como a experiência de afroempreendedorismo nos Estados Unidos pode auxiliar as atividades no Brasil, mas vocês não precisam da minha ajuda. Vocês já sabem o que fazer. E vocês já fazem muito bem”. Eugene também falou sobre reafirmar constantemente os indicativos positivos da população negra e como a comunidade de empreendedores e empresários podem ser organizar a partir dos princípios da economia étnica, da importância de conquistar cargos de lideranças e de tomadas de decisão para fortalecer o grupo, sobre estabelecer parcerias e associações em sintonia com aquela famosa frase “quem caminha sozinho chega mais rápido, mas aquele que vai acompanhado vai mais longe”.

Foto: Cubo Coworking.

Foram dois dias intensos de imersão no tema afroempreendedorismo que, sem sombra de dúvidas, farão toda a diferença no desenvolvimento da minha pesquisa.

Afroempreendedorismo é tema de eventos em São Paulo

Na quarta-feira passada, 17 de maio, estive presente no evento ‘O ecossistema para a Promoção do Crescimento de Negócios de Alto Impacto Social’ promovido pelo BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento e o Inova Capital – Programa de Apoio a Empreendedores Afro-brasileiros.

A programação contou com a presença de líderes de iniciativas civis e governamentais, empresários e participações internacionais para debater sobre investimentos, desafios e possibilidades do mercado para afroempreendedores. Entre os convidados estavam Ruth Pinheiro da ReafroLuana Marques Garcia fundadora do Inova Capital, Eugene Cornelius Jr da Small Bussines AdministrationVenita Fields da Pelham S2K, o professor Marcelo Paixão da Universidade de Austin-Texas que pesquisa economia e questões raciais e responsável pela pesquisa ‘Acesso ao crédito produtivo pelos microempreendedores afrodescendentes – desafios para a inclusão financeira no Brasil’, entre outros.

Destaco aqui a pesquisa apresentada pelo professor Marcelo Paixão da qual analisa o perfil de acesso ao crédito produtivo pelos microempreendedores (MEI’s) a partir da diferenciação de cor ou raça. O estudo, desenvolvido pelo Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais (LAESER) da UFRJ em parceria com o BID, é baseado em entrevistas de mil microempreendedores residentes das cidades do Rio de Janeiro e Salvador entre abril e junho de 2013.

A pesquisa aponta que os MEI’s pardos ou pretos, em comparação ao brancos, buscam menos por bancos na hora de obter crédito, pagam juros maiores, declaram incomodo dentro de estabelecimentos bancários e têm mais dificuldades no acesso a serviços financeiros. Entre os entrevistados negros 41,3% afirmam se sentir deslocados pela forma como são olhados dentro das instituições, 48,2% se sentem constrangidos e 60,8% declaram ser difícil ou muito difícil ter acesso ao crédito.

O estudo recomenda algumas políticas para a resoluções de problemáticas como essas destacadas acima, desde capacitação de agentes bancários, implementação efetiva de linhas de créditos para empreendedores negros, avaliação das regras aplicadas para liberação de crédito, entre outras sugestões.

É possível perceber que (também) nos espaços financeiros o racismo estrutural determina as regras. Mesmo a população negra no Brasil compondo 54% do país e movimentando, segundo a pesquisa Afroconsumo da Etnus, cerca de R$ 800 bilhões ao ano, ainda assim os bancos, principais interessados na rotatividade financeira ainda barram o acesso de pretos e pardos ao crédito, que para esses o pedido é recusado três vezes mais do que para brancos.

No dia seguinte, quinta-feira 18, participei do evento ‘Desvendando os códigos do afro-empreendedorismo’, conto mais sobre ele no próximo post.

Conheça as iniciativas de afroempreendedorismo

Na última terça-feira, dia nove, participei do workshop Startup A da Afrobusiness Brasil falando sobre mídias sociais como ferramenta de relacionamento para empreendedores. O evento contou também com as falas de Sérgio All – publicitário e um dos diretores da Afrobusiness – e da youtuber Patrícia Avelino.

Foto: Afrobusiness

Eu já havia falado sobre a Afrobusiness lá no Versátil RP, mas vale relembrar a importância dessa instituição. A associação tem como objetivo criar mecanismos de integração entre empreendedores, intraempreendedores e profissionais liberais negros, como foco no desenvolvimento econômico e de inclusão social desse grupo.

Objetivos que estão completamente alinhados com o contexto social de afroempreendedores no país. Segundo o relatório Donos de Negócios no Brasil: análise por raça/cor apresentado pelo Sebrae, há no Brasil 23,1 milhões de donos de negócios, dos quais 99% são empresas de micro e pequeno porte. Para o Pnad é considerado dono de micro e pequenos negócios aqueles que trabalham por conta própria sozinhos ou com sócio, mas não possuem empregados e aqueles que são empregadores de ao menos e somente um empregado. O relatório revela ainda que a porcentagem de donos de negócios autodeclarados pretos ou pardos cresceu 27% entre 2002 e 2012, resultando em 11,6 milhões de pessoas, número que representa 50% do total de donos de negócios.

Há ainda uma pesquisa sobre os participantes do Projeto Brasil Afroempreendedor (PBAE), encomendada pelo Instituto Adolpho Bauer (IAB) e pelo Coletivo de Empresários e Empreendedores Afro-brasileiros (Ceabra), em convênio com o Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequena Empresa (Sebrae) executada por pesquisadores do Centro de Filosofia e Ciências Humanas do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da Universidade Federal de Santa Catarina com o objetivo de compreender o comportamento, perfil e os anseios dos empreendedores pertencentes ao PBAE, propor políticas públicas e avaliação institucional. O estudo apresenta a relação dos pesquisados com movimentos sociais e situações de racismo, sobretudo ao que se refere aos seus empreendimentos. Dentre as conclusões encontram-se apontamentos sobre a existência de redes solidárias, cooperação produtiva, combate ao racismo e valorização do orgulho negro e a internet entre os três principais canais de viabilização das atividades empresariais.

Como contei no post sobre a minha pesquisa de mestrado são temas e atividades que muito me interessam e na próxima semana estarei como ouvinte em mais dois eventos que acontecerão em São Paulo. Na quarta-feira, 17, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Inova Capital – Programa de Apoio a Empreendedores Afro-Brasileiros farão um encontro com lideranças dos Estados Unidos e do Brasil para um diálogo sobre iniciativas bem-sucedidas, aprendizados, desafios e oportunidades de ações para a valorização e o crescimento de negócios de alto impacto social. E na quinta-feira, 18, o Instituto Feira Preta e o Black Codes promovem o evento Desvendando os códigos do afro-empreendedorismo com apresentação de cases e uma roda de conversa com iniciativas em atuação, inclusive com presença da Afrobusiness.

Por fim, para quem se interessar pelo assunto mídias sociais para empreendedores, a apresentação já está disponível para consulta. 🙂