Conteúdo on-line para fortalecer as diferenças: análise do Por Dentro da África

artigo produzido como requisito de avaliação para a disciplina Teoria Social Contemporânea no Programa de Pós-Graduação em Ciências Humanas e Sociais na UFABC.

 

O artigo tem como objetivo analisar o conteúdo do site Por Dentro da África a partir de Canclini (2015) a respeito da internet como objeto de pesquisa e a comunicação como um dos pilares para pensar as contradições da sociedade e afirmar diferenças. Para tanto nos apoiaremos nas concepções de globalização como um novo regime (CANCLINI, 2007), como intensificadora das relações sociais (GIDDENS, 1991) e como fábula e perversidade (SANTOS, 2001).


O recente desenvolvimento das ferramentas de comunicação tem grande importância na configuração da sociedade moderna no contexto da globalização, aqui nos interessa principalmente a possibilidade de encurtamento das relações sociais independente de proximidade geográfica, mas com cada vez mais conexões por interesses em comum e a velocidade com que as notícias transitam, ambas características possibilitadas pela rede mundial de dispositivos conectados na internet (LÉVY, 2010). Para Canclini (2007, p. 31) “as teorias comunicacionais nos lembram que a conexão e desconexão com os outros são parte da nossa constituição como sujeitos individuais e coletivos” e “já não se trata de decidir se é aceitável considerar a internet como objeto de estudo (…) será possível fazer investigação sem internet?” (2007, p.188) é a partir dessas concepções que pretendemos analisar o conteúdo do site Por Dentro da África para verificar se os mesmos são instrumentos de afirmação das diferenças. Assim como afirma Bardin (2011, p. 20) “por detrás do discurso aparente geralmente simbólico e polissêmico esconde-se um sentido que convém desvendar”.

Por “diferenças” ou “os diferentes”, Canclini (2007) afirma que são aqueles que não se enquadram nos padrões homogeneizados impostos pela globalização. Para o autor, os recursos interculturais são decisivos para construir alternativas para entender que “os diferentes são o que são, em relações de negociação, conflito e empréstimos recíprocos” (2007, p. 17) e assim criar maneiras de ressaltar suas identidades sem necessariamente adotar um padrão preconcebido pelos efeitos da globalização.

Globalização por Giddens, Canclini e Milton Santos

A globalização é um termo que carece de definição consensual, talvez por se tratar de um fenômeno em constante atualização a partir dos fatos sociais na contemporaneidade. Para Canclini (2007), a fragmentação é uma característica estrutural dos processos desse fenômeno, a globalização, portanto, se apresenta como um conjunto de processos de homogeneização e deve ser percebida como o resultado de múltiplos movimentos, em parte contraditórios, mas que formam um conjunto de narrativas. Já Giddens (1991) afirma que a globalização pode ser definida como uma intensificação das relações sociais em escala mundial. Dessa forma ela permite conexões sociais além do tempo-espaço e essas relações, por sua vez, tendem a fortalecer pressões de autonomia local e identidade cultural. Podemos falar de identidade cultural a partir do que Canclini (2007) considera diferente e que necessita ser fortalecido, para o autor demarcar a diferença é um ato básico de dignidade de determinados grupos sociais e o primeiro passo para que ela continue a existir.

Para Milton Santos (2001) a globalização tem três faces: a fábula – que prega uma suposta homogeneização e consumo; a perversa – a que vivenciamos atualmente com aumento exponencial de desemprego, pobreza, desabrigo, mortalidade infantil entre outros problemas sociais; e uma outra globalização possível, da qual o autor sugere a apropriação das bases técnicas para serviço dos fundamentos sociais e políticos. Nesse último aspecto há concordância em Giddens (2000), quando o autor afirma considerar a globalização um fenômeno novo e revolucionário, principalmente em razão da evolução dos meios de comunicação que “influenciam dramaticamente todos os aspectos da globalização desde a primeira introdução da impressora mecânica na Europa” (p. 71).

Canclini (2007) assume veementemente sua visão para analisar a globalização:

Para tratar dos processos globalizadores, deve se falar, sobretudo, de gente que migra ou viaja, que não vive onde nasceu, que troca bens e mensagens com pessoas distantes, que assiste o cinema e televisão de outros países ou conta histórias em grupo sobre o país que deixou. Gente que se reúne para celebrar alguma coisa distante ou se comunica por correio eletrônico com outras pessoas que não sabe quando irá rever. De certo modo, sua vida está em outro lugar. Quero pensar a globalização dos relatos que mostram, junto com sua existência pública, a intimidade de contatos interculturais sem os quais ela não seria o que é. Como a globalização não apenas homogeneíza e nos aproxima, mas também multiplica as diferenças e gera novas desigualdades, não se pode valorar a versão oficial das finanças e da mídia globalizada – que nos prometem a onipresença – sem ao mesmo tempo entender a sedução e o pânico de chegar facilmente a certos lugares e interagir com seres diferentes. Além do risco de nos sentirmos excluídos ou de sermos condenados a conviver com quem não queremos. Como a globalização não consiste na disponibilidade de todos para todos, nem na possibilidade generalizada de entrar em todos os lugares, é impossível entendê-la sem os dramas da interculturalidade e da exclusão, sem as agressões ou autodefesas cruéis do racismo e as disputas, amplificadas em escala mundial, para marcar a diferença entre o outro que escolhemos e o vizinho compulsório. A globalização sem a interculturalidade é “OCNI”, um objeto cultural não identificado. (p. 46)

 

A visão de Canclini sobre a globalização é que motiva a análise pretendida no artigo, buscamos verificar se o conteúdo do site Por Dentro da África contém relatos do fortalecimento de suas identidades culturais e da interculturalidade, que para Canclini trata-se da “confrontação e ao entrelaçamento, àquilo que sucede quando os grupos entram em relações e trocas” (2015, p. 17).

O site Por Dentro da África é formado por uma equipe espalhada por diversos países do continente africano como Guiné-Bissau, Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e por pessoas do Brasil, Argentina, Portugal e Alemanha. Apenas para contextualizar, o continente africano, como explica Munanga (2009), tem 56 países e cerca de 600 milhões de habitantes com etnias, línguas e culturas diversas. Nem todas as pessoas que compõem o site Por Dentro da África são nativas, algumas são estudiosas de temas relacionados ao continente africano, desde política, artes, negócios, direitos humanos, negócios e meio ambiente. Pretendemos verificar se o conteúdo do site sugere proteção do idioma, da história e aspectos culturais, participação nas comunicações para proporcionar à sociedade informações e repertórios culturais.

Para tanto selecionamos 10 artigos publicados no mês de maio de 2017 no site Por Dentro da África para a análise de conteúdo. Bardin (2011) considera a análise do conteúdo um procedimento sistematizado de técnicas que visam a descrição das mensagens a partir de indicadores que propiciem a inferência de conhecimentos sobre a produção e recepção destas mensagens. Além da coleta do conteúdo e para auxiliar na análise qualitativa do material, faremos a mineração do texto com a ferramenta desenvolvida pelo Grupo de Pesquisa Gtech.Edu da UFRGS para mineração de texto Sobek Mining que seleciona, a partir da leitura automática dos textos, os termos recorrentes e os apresenta em forma de grafos (LORENZATTI, 2007).

Abaixo a tabela com títulos, resumos do conteúdo, categoria central definida pelo editor do site e os principais termos minerados pela ferramenta Sobek Mining:

TÍTULO DO TEXTO RESUMO DO CONTEÚDO CATEGORIA CENTRAL PRINCIPAIS CONCEITOS
Belo Horizonte: Exposição retrata período da escravidão no Brasil Divulgação de evento sobre o período da escravidão da qual as mulheres são o tema centra. Cultura Exposição, Belo Horizonte, Lofgren e Patrícia Gouvêa, maio, período da escravidão, artistas, Isabel, Mãe Preta
Zâmbia tenta reencontrar a história em Copa do Mundo Sub-20 Divulgação da Copa do Mundo sub-20 de futebol, destaque para os times africanos. Esporte South Africa, país, fase, futebol, base, equipe, Guiné, torneio, Copa, Zâmbia, grupo, final, avançar, Sul
Eleições em Angola: Aplicativo será usado para denunciar abusos e fraudes Explica como acontecerão as eleições em Angola pelo aplicativo “zuela”. Notícias Angola, José Eduardo dos Santos, Presidente da República, direitos, presidente, processo, dados, MPLA, aplicativo, ferramenta, eleições
Rio de Janeiro recebe Fórum Itinerante de Cinema Negro Divulgação de data e programação do festival de cinema negro na cidade do Rio de Janeiro. Cultura FINCINE, filmes, Rio de Janeiro, Itinerante de Cinema Negro, mulheres, cinema
Nigéria: Relatório detalha violações contra crianças promovidas pelo Boko Haram Relata os abusos e violências sofridos por crianças na Nigéria pelo Boko Haram. Direitos Humanos Boko Haram, relatório, grupo, período avaliado, suicidas, ataques, uso de crianças, violações, Nigéria, integrantes, escolas, ataques
Agroindústria poderá expulsar camponeses de suas terras na Zâmbia Relata a possível transição de agricultura família para agroindústria o que afetará as famílias da Zâmbia. Negócios Agriculturas familiares, terras, Zâmbia, camponeses, relatora, especial, Elver, Direito
Relatório destaca os desafios da urbanização rápida em cidades africanas Relata a falta de acesso à moradia da população de Bamako em Mali. Economia Infraestrutura, Cidades, Bamako, relatório, desenvolvimento, cidades africanas, rápido, crescimento
Congolinária: “Usamos a gastronomia para contar a nossa história”, diz Pitchou Luambo Conta a história do congolês refugiado no Brasil que montou um restaurante de culinária típica de seu país para assegurar suas raízes. Cultura República Democrática do Congo, campanha, anos, Congolinária, animais, direitos, Pitchou, projeto, terra, Brasil, defesa, cultura, mulheres, congolesa, comida, advogado, história, congolês
“Pintar permite reivindicar questões abandonadas pelos líderes”, diz Roberto Mendes Entrevista com o artista plástico de Guiné Bissau que conta como usa a arte para emitir críticas sociais. Cultura Guiné Bissau, trabalho, Robert, poesia, anos, cultura, pintura, Portugal, guineense, poeta, Guiné, artista, Malangatana, artísticas
Brasil: ONU e sociedade civil pedem sanção sem vetos da Lei de Migração Relato sobre posição favorável da ONU e de diversos grupos da sociedade civil em relação à Lei de Migração no Brasil. Direitos Humanos Organização, Internacional, entidade, direitos humanos, Brasil, migrante, Migrações, Migração, refúgio, legislação, pessoas, nova lei, Lei, projeto, regularização, migratória

Como podemos notar na tabela a categoria central por mais vezes abordada foi cultura (4), seguidos de direitos humanos (2), esporte (1), economia (1), notícias (1) e negócios (1). Quando o assunto é direitos humanos as questões levantadas tratam dos problemas de suprimentos básicos da população como eleições, moradia, proteção aos direitos e segurança das famílias e das crianças e de leis sobre migrantes e refugiados em outros continentes, como no caso da Lei do Migrante debatida recentemente no Brasil. A partir das palavras mineradas pelo Sobek Mining podemos verificar como cidades, países e nomes de pessoas são citadas nos textos e ainda o destaque e frequência de termos como “período da escravidão”, “cultura” e “história”, podemos verificar então, que o conteúdo reforça a ideia de identidade e diferença levantada por Canclini (2015).

Além disso, podemos verificar as características da globalização levantadas pelos autores aqui citados, tais como intensificação das relações sociais (GIDDENS, 1991) – na medida em que o site Por Dentro da África desenvolve uma rede de pessoas de várias localidades e contextos para abordar temas relacionados a um continente específico; a globalização como fábula e perversidade (SANTOS, 2001) – pois o conteúdo destaca problemas sociais provavelmente causados por questões econômicas e de consumo como nos textos sobre violência contra crianças, acesso à moradia, agroindústria e a lei de migração.

No conteúdo sobre migrantes e refugiados, “Brasil: ONU e sociedade civil pedem sanção sem vetos da Lei de Migração” e “Congolinária: ‘Usamos a gastronomia para contar a nossa história’, diz Pitchou Luambo” respectivamente, podemos notar o que Canclini diz sobre falar de “gente que migra ou viaja, que não vive onde nasceu, que troca bens e mensagens com pessoas distantes” (2007, p. 46) para debater a globalização e entender como tais pessoas vivem e sobrevivem a questões como racismo, preconceitos, saudade do país e da família, reforço e resistência cultural.

É possível concluir, portanto, que a comunicação, a internet e a tecnologia apropriadas por determinados grupos sociais podem ser utilizadas para desenvolver uma outra globalização possível, assim como almejava Milton Santos. A partir do conteúdo disponibilizado no site Por Dentro da África se estabelece relações de interesses em comum, como pessoas do continente africano, residentes ou os migrantes em outros países, que buscam reafirmar sua identidade cultural ou até mesmo afrodescendentes que pretendem conhecer suas raízes. Dessa forma, o conteúdo on-line contribui para a constituição do indivíduo e do coletivo.

Em relação ao questionamento levantado por Canclini em “será possível fazer investigação sem internet?” (2007, p.188), podemos perceber a internet e a maneira como ela é utilizada é de grande valia para pesquisas nos mais variados campos do saber. Assim podemos considerá-la um campo repleto de informação a serem observadas e interpretadas.

Como funciona o Sobek Mining

A princípio a ferramenta tem como objetivo apoiar atividades educacionais sobre leitura e escrita. Basta copiar o conteúdo, colar na área de transferência e clicar em enviar. Então, na medida em que se extrai dos textos seus principais conceitos é possível utilizar de forma pedagógica o confronto da compreensão pelos diagramas gerados no Sobek.

Abaixo alguns exemplos das redes de alguns textos analisados no artigo (clique em ‘abrir em nova aba’ para visualizar melhor).

Exemplo da rede de palavras do texto ‘Zâmbia tenta reencontrar a história em Copa do Mundo Sub-20’.

Exemplo da rede de palavras do texto ‘Brasil: ONU e sociedade civil pedem sanção sem vetos da Lei de Migração’.

Exemplo de rede de palavras do texto ‘Relatório destaca os desafios da urbanização rápida em cidades africanas’.

 

Suponho que também é possível utilizar a ferramenta para outros fins, como a própria análise do conteúdo proposto no presente artigo e até estratégia de produção editorial, como extrair de um manual da marca os principais conceitos a serem produzidos para uma determinada ação nas mídias sociais.

Bibliografia

BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. 1ª ed. 1ª reimp. São Paulo: Edições 70, 2011.

CANCLINI, Nestor A. A Globalização Imaginada. 1ª reimp. São Paulo: Iluminuras, 2007.

__________, Nestor A. Diferentes, desiguais e desconectados: mapas da interculturalidade. 3ª ed. 1ª reimp. Rio de Janeiro: UFRJ, 2015.

GIDDENS, Anthony. As consequências da Modernidade. São Paulo: Unesp, 1991.

_________, Anthony. Mundo em Descontrole. Rio de Janeiro: Record, 2000.

LÉVY, Pierre. Cibercultura. 3ª ed. São Paulo: 34, 2010.

LORENZATTI, A. Sobek: uma ferramenta de Mineração de Textos. Trabalho de Conclusão de Curso. Caxias do Sul: departamento de Informática/UCS, 2007.

MUNANGA, Kabengele. Origens africanas do Brasil contemporâneo. São Paulo: Global, 2009.

SANTOS, Milton. Por uma outra Globalização – do pensamento único à consciência universal. 6ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2001.


Como citar esse artigo:

OLIVEIRA, Taís. Conteúdo on-line para fortalecer as diferenças: análise do Por Dentro da África. Disponível em: <http://taisoliveira.me/analise-conteudo-sobek-mining/>

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#30diasporRafaelBraga: Rede de Solidariedade e Indignação

Durante todo o mês de junho acontece na internet e em espaços físicos da cidade de São Paulo e região metropolitana a campanha #30diasporRafaelBraga organizada por de profissionais e estudiosos de diversas áreas como comunicação, história, direito, psicologia, pedagogia, entre outras.

O caso Rafael Braga tem grande relevância em alguns movimentos sociais por se tratar de um dos episódios de maior incoerência jurídica brasileira da atualidade. Esses movimentos sugerem que tais incoerências teriam como motivação o fato de Rafael ser pobre, negro, catador de recicláveis e morador de favela na cidade do Rio de Janeiro.

Apesar de não ter participado, Rafael Braga foi o único condenado em relação às manifestações populares de junho de 2013, acusado de portar material para a confecção de coquetel molotov – desinfetante e água sanitária – que posteriormente comprovou-se que o composto não é capaz de criar líquido inflamável. Para compreender o contexto, o Movimento Pela Liberdade de Rafael Braga disponibiliza em seu site uma linha do tempo com os fatos e datas que concatenam o caso.

Ao fazer uma análise da maior dentre as páginas que pautam o caso Rafael Braga, a “Pela Liberdade de Rafael Braga Vieira” com 34.488 likes, percebemos uma maior sequência de conteúdos postados e, consequentemente, maior interação no último mês (de 17/4 – 29/5). Notamos também a participação de artistas, mídias alternativas e pessoas de várias localidades, inclusive fora do Brasil, em países como Alemanha, Estados Unidos, Japão e Uruguai. O incentivo ao apoio e suporte à família de Rafael Braga também é bastante recorrente, afinal era dele que vinha parte do sustento da casa. Ou seja, a rede de solidariedade e indignação em torno do caso é grande e significativa, sobretudo a indignação por identificação que reforça  que não há nem homogeneização dos membros da nação em termos culturais e de identidade (CANCLINI, 2015) e nem em termos de justiça quando aspectos identitários são levados a júri.

Se você não está familiarizado com essa pauta, deixo abaixo dois vídeos que sintetizam os últimos anos de Rafael Braga e convido a curtir a página #30diasporRafaelBraga e acompanhar todas as ações e debates.

 

 


Bibliografia citada: 

CANCLINI. Nestor A. Diferentes, desiguais e desconectados: mapas da interculturalidade. 3ª ed. 1ª reimp. Rio de Janeiro: UFRJ, 2015.

Desvendando os códigos do Afro-Empreendedorismo

Praticamente complementando o evento do dia anterior, na quinta-feira passada, 18, aconteceu o Black Codes: Desvendando os códigos do Afro-Empreendedorismo no espaço Cubo Cowrking em São Paulo. Promovido pelo Instituto Feira Preta e pela consultoria Black Codes, em parceria com o Consulado Americano, o evento trouxe uma roda de conversa com empreendedores negros e palestra com Eugene Cornelius Jr da Small Bussines Administration.

Na sequência: Regina Pfiffer, Juliana Martins, Yan Ragede, Fernando Cândido, Fernanda Leôncio, e Diego Gervaes

Com mediação de Regina Pfiffer da Aliança Empreendedora, a mesa foi composta por Juliana Martins da Cerveja Kula, Yan Ragede da Afrobox, Fernando Cândido do Rap Burger (que já está nos meus cases pela ótima atuação nas mídias sociais), Fernanda Leôncio da Afrobusiness (do evento que tive o prazer de palestrar na outra semana) e Diego Gervaes da Black Codes. Os painelistas contaram sobre seus empreendimentos, diferenciais competitivos, conquistas e desafios sobre ser negro e empreendedor no Brasil.

Na sequência ocorreu a palestra de Eugene Cornelius Jr que, a partir do que foi compartilhado na mesa, afirmou “Me convidaram para falar como a experiência de afroempreendedorismo nos Estados Unidos pode auxiliar as atividades no Brasil, mas vocês não precisam da minha ajuda. Vocês já sabem o que fazer. E vocês já fazem muito bem”. Eugene também falou sobre reafirmar constantemente os indicativos positivos da população negra e como a comunidade de empreendedores e empresários podem ser organizar a partir dos princípios da economia étnica, da importância de conquistar cargos de lideranças e de tomadas de decisão para fortalecer o grupo, sobre estabelecer parcerias e associações em sintonia com aquela famosa frase “quem caminha sozinho chega mais rápido, mas aquele que vai acompanhado vai mais longe”.

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Foram dois dias intensos de imersão no tema afroempreendedorismo que, sem sombra de dúvidas, farão toda a diferença no desenvolvimento da minha pesquisa.

Afroempreendedorismo é tema de eventos em São Paulo

Na quarta-feira passada, 17 de maio, estive presente no evento ‘O ecossistema para a Promoção do Crescimento de Negócios de Alto Impacto Social’ promovido pelo BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento e o Inova Capital – Programa de Apoio a Empreendedores Afro-brasileiros.

A programação contou com a presença de líderes de iniciativas civis e governamentais, empresários e participações internacionais para debater sobre investimentos, desafios e possibilidades do mercado para afroempreendedores. Entre os convidados estavam Ruth Pinheiro da ReafroLuana Marques Garcia fundadora do Inova Capital, Eugene Cornelius Jr da Small Bussines AdministrationVenita Fields da Pelham S2K, o professor Marcelo Paixão da Universidade de Austin-Texas que pesquisa economia e questões raciais e responsável pela pesquisa ‘Acesso ao crédito produtivo pelos microempreendedores afrodescendentes – desafios para a inclusão financeira no Brasil’, entre outros.

Destaco aqui a pesquisa apresentada pelo professor Marcelo Paixão da qual analisa o perfil de acesso ao crédito produtivo pelos microempreendedores (MEI’s) a partir da diferenciação de cor ou raça. O estudo, desenvolvido pelo Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais (LAESER) da UFRJ em parceria com o BID, é baseado em entrevistas de mil microempreendedores residentes das cidades do Rio de Janeiro e Salvador entre abril e junho de 2013.

A pesquisa aponta que os MEI’s pardos ou pretos, em comparação ao brancos, buscam menos por bancos na hora de obter crédito, pagam juros maiores, declaram incomodo dentro de estabelecimentos bancários e têm mais dificuldades no acesso a serviços financeiros. Entre os entrevistados negros 41,3% afirmam se sentir deslocados pela forma como são olhados dentro das instituições, 48,2% se sentem constrangidos e 60,8% declaram ser difícil ou muito difícil ter acesso ao crédito.

O estudo recomenda algumas políticas para a resoluções de problemáticas como essas destacadas acima, desde capacitação de agentes bancários, implementação efetiva de linhas de créditos para empreendedores negros, avaliação das regras aplicadas para liberação de crédito, entre outras sugestões.

É possível perceber que (também) nos espaços financeiros o racismo estrutural determina as regras. Mesmo a população negra no Brasil compondo 54% do país e movimentando, segundo a pesquisa Afroconsumo da Etnus, cerca de R$ 800 bilhões ao ano, ainda assim os bancos, principais interessados na rotatividade financeira ainda barram o acesso de pretos e pardos ao crédito, que para esses o pedido é recusado três vezes mais do que para brancos.

No dia seguinte, quinta-feira 18, participei do evento ‘Desvendando os códigos do afro-empreendedorismo’, conto mais sobre ele no próximo post.

Conheça as iniciativas de afroempreendedorismo

Na última terça-feira, dia nove, participei do workshop Startup A da Afrobusiness Brasil falando sobre mídias sociais como ferramenta de relacionamento para empreendedores. O evento contou também com as falas de Sérgio All – publicitário e um dos diretores da Afrobusiness – e da youtuber Patrícia Avelino.

Foto: Afrobusiness

Eu já havia falado sobre a Afrobusiness lá no Versátil RP, mas vale relembrar a importância dessa instituição. A associação tem como objetivo criar mecanismos de integração entre empreendedores, intraempreendedores e profissionais liberais negros, como foco no desenvolvimento econômico e de inclusão social desse grupo.

Objetivos que estão completamente alinhados com o contexto social de afroempreendedores no país. Segundo o relatório Donos de Negócios no Brasil: análise por raça/cor apresentado pelo Sebrae, há no Brasil 23,1 milhões de donos de negócios, dos quais 99% são empresas de micro e pequeno porte. Para o Pnad é considerado dono de micro e pequenos negócios aqueles que trabalham por conta própria sozinhos ou com sócio, mas não possuem empregados e aqueles que são empregadores de ao menos e somente um empregado. O relatório revela ainda que a porcentagem de donos de negócios autodeclarados pretos ou pardos cresceu 27% entre 2002 e 2012, resultando em 11,6 milhões de pessoas, número que representa 50% do total de donos de negócios.

Há ainda uma pesquisa sobre os participantes do Projeto Brasil Afroempreendedor (PBAE), encomendada pelo Instituto Adolpho Bauer (IAB) e pelo Coletivo de Empresários e Empreendedores Afro-brasileiros (Ceabra), em convênio com o Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequena Empresa (Sebrae) executada por pesquisadores do Centro de Filosofia e Ciências Humanas do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da Universidade Federal de Santa Catarina com o objetivo de compreender o comportamento, perfil e os anseios dos empreendedores pertencentes ao PBAE, propor políticas públicas e avaliação institucional. O estudo apresenta a relação dos pesquisados com movimentos sociais e situações de racismo, sobretudo ao que se refere aos seus empreendimentos. Dentre as conclusões encontram-se apontamentos sobre a existência de redes solidárias, cooperação produtiva, combate ao racismo e valorização do orgulho negro e a internet entre os três principais canais de viabilização das atividades empresariais.

Como contei no post sobre a minha pesquisa de mestrado são temas e atividades que muito me interessam e na próxima semana estarei como ouvinte em mais dois eventos que acontecerão em São Paulo. Na quarta-feira, 17, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Inova Capital – Programa de Apoio a Empreendedores Afro-Brasileiros farão um encontro com lideranças dos Estados Unidos e do Brasil para um diálogo sobre iniciativas bem-sucedidas, aprendizados, desafios e oportunidades de ações para a valorização e o crescimento de negócios de alto impacto social. E na quinta-feira, 18, o Instituto Feira Preta e o Black Codes promovem o evento Desvendando os códigos do afro-empreendedorismo com apresentação de cases e uma roda de conversa com iniciativas em atuação, inclusive com presença da Afrobusiness.

Por fim, para quem se interessar pelo assunto mídias sociais para empreendedores, a apresentação já está disponível para consulta. 🙂