Práticas em Mídias Sociais na Etec Cepam

Nos meses de junho e julho tive o prazer de ministrar as aulas de planejamento de comunicação no curso Práticas em Mídias Sociais na Etec Cepam Gestão Pública. Esse curso se enquadra na modalidade de Formação Inicial e Continuada, ou seja, preferencialmente para iniciantes na área de mídias sociais. Outro ponto interessante é que a Etec Cepam tem foco em governo e terceiro setor, então todos os cursos são pensados a partir dessa temática.

Ao todo foram 160 horas/aula divididas em dois módulos: o de ferramentas e o de planejamento. Ambos orientados a um projeto prático desenvolvido em grupo que é apresentado como requisito de conclusão.

As minhas aulas abordaram o processo técnico do desenvolvimento de planejamento de comunicação e planejamento editorial para mídias sociais, além da inserção de temas como empreendedorismo, terceiro setor, financiamento coletivo, governo aberto, lei de acesso à informação, diversidade, entre outros. Todas as aulas foram baseadas em referências que eu sigo enquanto profissional, infelizmente não posso publicizar os slides, mas deixo abaixo a lista de blogs, profissionais, livros e cases que sugeri aos alunos.

BLOGS

PROFISSIONAIS

LIVROS

CASES

Vale ressaltar que o curso é gratuito, para saber das próximas datas acompanhe a Etec Cepam. 😉

O sistema de inovação brasileiro: uma proposta orientada à missão

No mês de agosto eu e o Tarcízio Silva apresentamos uma relatoria sobre o sistema de inovação brasileiro para a disciplina de Economia da Inovação e do Conhecimento na UFABC, disponibilizamos abaixo os slides utilizados.

O relatório The Brazilian Innovation System: A Mission-Oriented Policy Approach foi publicado em 2016 pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos sob gerenciamento de Mariana Mazzucato – Professora de Economia da Inovação na University of Sussex, membro na Science Policy Research Unity e autora de O Estado Empreendedor e Caetano Penna – Professor na UFRJ, membro do GESEL e da Science Policy Research Unity.

40º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação

Em setembro Curitiba recebe o 40º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, o Intercom. A programação conta com mesas de debates, palestras, apresentação de artigos submetidos, Expocom, Intercom Jr e com a presença de importantes referências de professores e pesquisadores da comunicação como Cicília Maria Krohling Peruzzo, Margarida Maria Krohling Kunsch, Maria Immacolata Vassallo de Lopes, Luís Alberto de Farias, Rudimar Baldissera, entre outros.

Os temas debatidos no congresso versam sobre jornalismo, relações públicas, publicidade, rádio, televisão, cinema, produção editorial e de conteúdo para mídias digitais e políticas públicas de comunicação e esses estão divididos em Grupos de Pesquisa (GP’s).

Meu artigo ‘Redes de solidariedade e indignação na internet: o caso “Liberdade para Rafael Braga”’ desenvolvido a princípio para a disciplina Sociedade da Informação: Cultura, Comunicação e Mídia na UFABC e expandido posteriormente sob orientação dos Professores Silvia Dotta e Ramatis Jacino foi aprovado no GP Comunicação e Cultura Digital. O trabalho analisa o conteúdo de algumas das principais páginas envolvidas nos protestos em relação ao caso de Rafael Braga, a exemplo da 30 dias por Rafael Braga e busca entender a motivação ideológica da solidariedade e indignação e a identificação de determinados movimentos sociais, sobretudo o movimento negro.

Os anais do evento já estão disponíveis e deixo abaixo alguns dos artigos com temática similar.

Livro – Diferentes, Desiguais e Desconectados

O livro Diferentes, Desiguais e Desconectados (3ª edição, 2009) é uma obra do antropólogo argentino Néstor García Canclini, autor que tem um vasto repertório nos estudos culturais e trabalha principalmente com foco na América Latina. Nesse texto, especificamente, ele trata da multiculturalidade e da interculturalidade dos povos latino-americanos no contexto da globalização e a partir daí discute como as diferenças geram desigualdades e desconexões.

O livro levanta questões acerca dos novos arranjos sociais em decorrência da globalização e vai na contramão da homogeneização da sociedade pregada por entusiastas da “pós-modernidade”, busca encontrar caminhos a partir do saber interdisciplinar (antropologia, sociologia e comunicação) como artefato para reconhecer as diferenças, corrigir as desigualdades e entender como conectar as maiorias às redes globalizadas. Canclini, além de focar nos povos latino-americanos, deixa claro já no início do texto que tem como autores de referência Pierre Bourdieu, Clifford Geertz e Paul Ricoeur, tanto que o terceiro capítulo ele faz uma análise das ideias de Geertz e Bourdieu.

Na introdução ele discute bastante a questão da identidade e define multiculturalidade e interculturalidade, a primeira trata da justaposição de etnias ou grupos em uma cidade ou nação e supõe aceitação do heterogêneo, já a segunda “implica que os diferentes são o que são, em relações de negociação, conflito e empréstimos recíprocos” (p. 17), ou seja, não há (ou não deveria) existir a necessidade de “aceitar” ou o famoso “tolerância” aos diferentes, mas apenas as relações entre grupos diferentes de forma natural.

“As teorias comunicacionais nos lembram que a conexão e desconexão com os outros são parte da nossa constituição como sujeitos individuais e coletivos. Portanto, o espaço inter é decisivo. Ao postulá-lo como centro das investigações e da reflexão, estas páginas buscam compreender as razões dos fracassos políticos e participar da mobilização de recursos interculturais para construir alternativas”. (p. 31)

Por várias Canclini critica a unicidade e o universalismo epistemológico de cultura do “pós-modernismo”, no segundo capítulo o autor propõe uma conceituação de cultura com a preocupação nas diferenças, então afirma que que “cultural” seria o termo mais adequado, pois mesmo indo na contramão ou além da definição de cultura por Geertz “um sistema de significados”, o termo enquadrado no adjetivo faria mais sentido enquanto recurso para os diferentes, afirma ser o cultural um “choque de significados nas fronteiras; como a cultura pública que tem sua coerência textual mas é localmente interpretada; como redes frágeis de relatos e significados tramados por atores vulneráveis em situações inquietantes; como as bases da agência e da intencionalidade das práticas sociais correntes” (citando Ortner na p. 48).

Tela do seminário sobre o texto para a disciplina de Sociedade da Informação: Cultura, Comunicação e Mídia na UFABC | Por Bruno Giordano e Taís Oliveira

Para falar de identidade, apropriação e consumo de bens culturais, Canclini aborda o conceito de sociossemiótica da cultura que é o processo de produção, circulação e consumo de significações na vida social e das quatro tendências da cultura como processo sociomaterial e significante: 1) cultura em que cada grupo organiza sua identidade; 2) cultura como uma instancia simbólica da produção e reprodução da sociedade; 3) cultura como uma instancia da conformação do consenso e da hegemonia; e 4) cultura como dramatização eufemizada dos conflitos sociais.

Para o autor a globalização neoliberal mais do que resolver põe em evidencia as dificuldades que persistem quando se quer articular diferenças, desigualdades, procedimentos de inclusão-exclusão e as formas atuais de exploração e reafirma que a problemática da desigualdade econômica reside principalmente nos processos históricos da configuração social. E observa, sobretudo, a demanda étnico-política dos que desejam ser reconhecidos nas suas diferenças e viver em condições menos desiguais. O principal questionamento é como converter em fortaleza esse desencontro entre afirmação e diferença e impugnações à desigualdades?

Na segunda parte do livro o autor foca em falar com mais ênfase na América Latina, então fala sobre nominalismo, ou melhor, a falta de um nome único para as várias culturas latinas. E guia parte das páginas seguintes a partir das seguintes questões: Como ir além de definições ingênuas da subjetividade para construir um trabalho sólido para cidadanias possíveis? Que tarefas de investigações teóricas e políticas são necessárias? Como ser representados enquanto sujeito numa dominação completa da mídia? Como ser receptores ativos?

Tela do seminário sobre o texto para a disciplina de Sociedade da Informação: Cultura, Comunicação e Mídia na UFABC | Por Bruno Giordano e Taís Oliveira

Canclini traz de maneira brilhante críticas ao conceito de pós-moderno, fala da situação dos migrantes em contra-ponto aos nômades por escolha (ou os mais conhecidos atualmente por nômades digitais), fala também dos processos interculturais e das leis de proteção social que não acompanham a abertura cultural da condição globalizada, aborda a questão do lugar de fala e da necessidade de ir além do ponto de vista das elites do conhecimento. Isso tudo para tentar traçar uma reflexão sobre como a globalização pode ser menos excludente e a respeito da necessidade de políticas regionais e mundiais para a garantia da diversidade cultural.

#30diasporRafaelBraga: Rede de Solidariedade e Indignação

Durante todo o mês de junho acontece na internet e em espaços físicos da cidade de São Paulo e região metropolitana a campanha #30diasporRafaelBraga organizada por de profissionais e estudiosos de diversas áreas como comunicação, história, direito, psicologia, pedagogia, entre outras.

O caso Rafael Braga tem grande relevância em alguns movimentos sociais por se tratar de um dos episódios de maior incoerência jurídica brasileira da atualidade. Esses movimentos sugerem que tais incoerências teriam como motivação o fato de Rafael ser pobre, negro, catador de recicláveis e morador de favela na cidade do Rio de Janeiro.

Apesar de não ter participado, Rafael Braga foi o único condenado em relação às manifestações populares de junho de 2013, acusado de portar material para a confecção de coquetel molotov – desinfetante e água sanitária – que posteriormente comprovou-se que o composto não é capaz de criar líquido inflamável. Para compreender o contexto, o Movimento Pela Liberdade de Rafael Braga disponibiliza em seu site uma linha do tempo com os fatos e datas que concatenam o caso.

Ao fazer uma análise da maior dentre as páginas que pautam o caso Rafael Braga, a “Pela Liberdade de Rafael Braga Vieira” com 34.488 likes, percebemos uma maior sequência de conteúdos postados e, consequentemente, maior interação no último mês (de 17/4 – 29/5). Notamos também a participação de artistas, mídias alternativas e pessoas de várias localidades, inclusive fora do Brasil, em países como Alemanha, Estados Unidos, Japão e Uruguai. O incentivo ao apoio e suporte à família de Rafael Braga também é bastante recorrente, afinal era dele que vinha parte do sustento da casa. Ou seja, a rede de solidariedade e indignação em torno do caso é grande e significativa, sobretudo a indignação por identificação que reforça  que não há nem homogeneização dos membros da nação em termos culturais e de identidade (CANCLINI, 2015) e nem em termos de justiça quando aspectos identitários são levados a júri.

Se você não está familiarizado com essa pauta, deixo abaixo dois vídeos que sintetizam os últimos anos de Rafael Braga e convido a curtir a página #30diasporRafaelBraga e acompanhar todas as ações e debates.

 

 


Bibliografia citada: 

CANCLINI. Nestor A. Diferentes, desiguais e desconectados: mapas da interculturalidade. 3ª ed. 1ª reimp. Rio de Janeiro: UFRJ, 2015.